Guerra e festa
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Psicanalista e palestrante, é autora de ‘Lupa da Alma’ e ‘Coisa de Menina?’ e ‘Coisa de Menino?’ (com Contardo Calligaris)
Claro que a oposição mais comum no nosso imaginário é "guerra e paz" . Tanto por Tolstói quanto pela ideia de que, se não há guerra, estamos em paz. Há dois problemas nessa ideia. Primeiro, paz é um conceito complexo e, mesmo quando não há guerra, é difícil definir um estado mental ou geopolítico que pudesse retratar um estado de apaziguamento. Segundo, porque, mesmo em termos concretos, paz não existe. Nunca existiu na história. Agora, por exemplo, parece que há nada menos que 120 guerras no mundo, contando conflitos entre países e entre facções armadas.
Penso que "guerra e festa" seria uma oposição mais útil. Temos aí duas formas distintas de se relacionar com o outro. Na guerra, o objetivo é destruir o inimigo, obliterar. Na festa, o objetivo é extrair prazer da sua presença. Já partimos de lugares mentais diferentes, até para considerar como avaliamos esse outro. Na guerra, só a cara, a comida e a religião do inimigo já são insuportáveis. Se é uma feira de negócios, e ele mostra seu lado rico e poderoso, vira bonito e interessante. Pense em Gaza e nas propagandas de turismo chique da Arábia Saudita. Pense nas periferias latino-americanas e nas propagandas de grandes festas populares, do México a Ushuaia, na Argentina.
Comecei a pensar nisso refletindo sobre a engrenagem prática e mental que é uma Copa do Mundo . Países se organizam para uma coisa mais original que a guerra: colocar "xis" pessoas correndo para colocar uma bola em certo lugar. E, o mais inusitado, arrastar nesse movimento bilhões de pessoas e bilhões de dólares. Nada como o poder do jogo, que é sempre a mimese da guerra.
Claro, sou e não sou ingênua. A Copa e a indústria do futebol têm muito dinheiro e, portanto, muita roubalheira. Têm líder vendido e líder comprado. Têm essa coisa absurda na manipulação dos sonhos pueris humanos chamada bets . Que, por sua vez, dá muito dinheiro para clubes e algumas poucas pessoas. Têm gol de mão, de pé, de lado. Têm virada confiante, têm recuo medroso. Têm de tudo.
Mas é sensacional você ver a história do mundo e de uns três séculos de colonização branca, cristã e europeia estar estampada numa seleção mestiça, ecumênica, global. Ou a mistura de gente que hoje é, na prática, Oriente e Ocidente ou norte e sul. (Além do "Sul Global", o conceito de metáfora mais fina do momento).
Essa mistura, que dilui conceitos clássicos de norte e sul, Oriente e Ocidente, centro e periferia, está na seleção francesa, inglesa ou espanhola, para falar nos grandes impérios do passado. E vale também para a nossa, em que garotos dos rincões do Brasil, que ralaram desde criança, hoje amam repaginar o rosto e deixar o barco em Mônaco.
De qualquer forma, está lá todo mundo brigando por status, falta ou gol. Não se matando de verdade. É uma "Copa-festa" do Mundo e não uma guerra mundial. Mesmo que seja uma festa do mundo privilegiado (uma das causas reais da guerra? Tópico para o futuro).
Guerra e festa.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.