'Gostosas sintéticas': loirona do Flávio e o golpe erótico da IA
No último domingo (18), manifestações políticas tomaram o Brasil. Em São Paulo, na Avenida Paulista, apoiadores de Flávio Bolsonaro se juntaram no Bloco do 22, uma espécie de trio elétrico em que o próprio candidato e seus principais aliados desfilaram.
Horas depois, chamou a atenção nas redes uma loira bronzeada, descalça, de shorts e top azul e branco, dançando ao lado dos políticos. Em outro vídeo, ela gravava uma selfie com o aspirante a presidente. Em outro, aparecia com ele num bar, saudando apoiadores. Os clipes somaram mais de 10 milhões de visualizações e logo renderam a ela um apelido: "loirona do Flávio".
'Ela' se chama Julia Berlli Cortez. No Instagram, diz ter 22 anos, estudar biomedicina, e a conta já soma 500 mil seguidores. Só que 'ela' não existe: é uma personagem sintética criada por inteligência artificial, com um único objetivo: vender conteúdo erótico. Obviamente, também feito por IA.
Julia é o mais novo exemplo de uma tecnologia que não cansa de evoluir e de ludibriar. A principal ferramenta por trás chama Higgsfield Genjutsu. Ela permite não só criar personagens sintéticos, mas manipulá-los e inseri-los no lugar de pessoas reais em vídeos já gravados. No caso da "loirona", ela nunca esteve no Bloco do 22: quem pula, gesticula e grita ao lado de Flávio, na gravação original, é o deputado federal Nikolas Ferreira.
Usar essa técnica sobre material fresco, recém-gravado, é novidade (e por isso enganou tanta gente). O formato mais comum era outro: pegar vídeos que já viralizaram, ou algum conteúdo de nicho com números comprovados de sucesso, e refazê-los com a personagem sintética no lugar do humano original.
Foi o que aconteceu com Cristina Graeml, jornalista paranaese que foi candidata ao Senado neste ano. Julia assumiu o lugar dela numa enquete de rua em que se pergunta à entrevistada se ela é de direita ou de esquerda. O conteúdo original, publicado pelo influenciador Vinicius Machado, soma mais de 600 mil curtidas. A IA manteve as respostas; trocou apenas o rosto e os gestos.
Usar avatares para vender conteúdo adulto não é invenção brasileira. Nos Estados Unidos, vários comediantes vêm denunciando que perfis de 'gostosas sintéticas' estão ganhando fama no Instagram e no TikTok roubando as piadas deles. A tática é sempre a mesma: um esquete ou trecho de stand-up que fez sucesso nas redes ganha nova roupagem, com a personagem de IA no lugar do humorista de verdade.
As comediantes sintéticas usam roupas justas e decotadas e miram um público mais velho e conservador, idêntico ao da "loirona do Flávio". Para dar alguma credibilidade, é comum inseri-las até como convidadas de talk-shows: episódios antigos que, não por acaso, costumavam ter alguma cena machista, como o apresentador pedindo que a convidada mostrasse os pés.
A revista "Wired" dedicou uma longa reportagem ao fenômeno na cena de comédia americana. Identificou pelo menos oito comediantes copiados por contas como "Aylen Skye" (250 mil seguidores) e "Tiffany Sloane" (375 mil), ambas com link para OnlyFans e Fanvue na bio. O detalhe mais cruel: em vários casos, a versão de IA performa melhor que o original, com iluminação e som superiores.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em economia.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Economia.