Janones desafia a esquerda a abandonar a 'campanha fofa'
Professor titular da UFBA, doutor em filosofia e autor de “Transformações da Política na Era Digital”, “A Democracia no Mundo Digital” e “A Tirania da Virtude”
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Tudo isso, porém, compõe até agora um roteiro apresentado pelo próprio Janones nas redes. A campanha de Lula não confirmou publicamente que o deputado tenha sido incorporado à sua estratégia eleitoral.
Pode ser apenas Janones reivindicando para si um lugar que a campanha de Lula não lhe concedeu. De toda forma, é interessante como ele revela uma concepção bastante precisa de comunicação eleitoral que é compartilhada por parte considerável da militância: não se pode ter nojo de sujar as mãos e lutar na lama, se necessário.
Campanhas eleitorais sempre combinam estilos de comunicação. Há a campanha oficial, submetida à legislação, às pesquisas, às alianças e ao cálculo reputacional do candidato. E há partidos, parlamentares, influenciadores, militantes e redes de apoio que atuam com graus de coordenação e autonomia. Alguns podem assumir as tarefas que o núcleo oficial não quer incorporar à sua voz.
É esse lugar que Janones reivindica. "Um governo tem limitações que nós não temos aqui pelas redes", escreveu ao absolver Lula, o governo e a Secom daquilo que considera a incompetência digital da esquerda. A proposta é uma divisão do trabalho: enquanto a campanha oficial preserva o candidato, outros provocam, ridicularizam, alarmam, atacam reputações e brigam por atenção nas plataformas.
Não é invenção sua. Figuras muito diferentes da direita digital, como Carlos Bolsonaro e Pablo Marçal , também operam num repertório em que conflito, choque, linguagem direta, quebra de liturgias e provocação têm valor estratégico. Janones adota parte dessa gramática, mas acrescenta uma justificativa: não se entra no esgoto porque seja bom, mas porque o adversário já está lá. Recusar suas armas seria aceitar lutar em desvantagem.
Daí o desprezo pela "campanha fofa", pela "esquerda limpinha", pelos "cirandeiros" e "arrogantes de salto alto". O alvo interno é quem supostamente confunde escrúpulo e correção de linguagem com eficácia eleitoral. O janonismo cultural reaparece, assim, como uma doutrina de espelhamento: se a extrema direita prosperou com agressividade, transgressão e guerra permanente por atenção e impacto, a esquerda deveria fazer o mesmo.
Há, contudo, bons motivos para se ter cautela com esta doutrina. O primeiro tem a ver com prudência política. Quem escolhe a destruição reputacional e a guerrilha de narrativas como armas deve contar com a reciprocidade do inimigo. Janones deveria saber que quem tem telhado de vidro não está especialmente protegido em uma guerra de pedras e que, com dois escândalos políticos suspensos como lâminas sobre o pescoço dos candidatos este ano, talvez não seja sábio esticar demais a corda.
O segundo é elementar: eleição não é guerra. Ninguém precisa matar nem morrer. Uma campanha existe para convencer pessoas, inclusive algumas que votaram no adversário.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.