Trump e Rubio se alternam no morde-assopra contra Brasil, dizem diplomatas
Diplomatas brasileiros ouvidos pela coluna sob condição de anonimato disseram ter a impressão de que Donald Trump e o secretário de Estado dele, Marco Rubio, estão se alternando nas posições de "good cop" e "bad cop" em relação ao Brasil.
A expressão em inglês corresponde ao morde-assopra: Rubio faria o papel do policial malvado, que ofende e agride o Brasil, enquanto Trump figuraria como aquele que aparece no intervalo do interrogatório violento e oferece a chance de negociar sem bater.
Um dos diplomatas ouvidos pela coluna disse que a questão é determinar se estão fazendo isso de forma deliberada, como parte de uma estratégia, ou se acontece porque Trump está ocupado demais com as eleições parlamentares de novembro e a guerra no Irã, deixando Rubio solto para lidar com a América Latina.
O secretário de Estado americano, que é filho de cubanos exilados, chegou a comparar o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com as ditaduras de esquerda em Cuba, Nicarágua e Venezuela. Ele também disse que Lula tornava a negociação sobre tarifas difícil porque o presidente brasileiro colocava seu "ego" à frente da possibilidade de fazer um bom acordo. Além disso, referiu-se à América Latina como "quintal" dos Estados Unidos.
Por outro lado, Trump classificou Lula como um presidente "dinâmico", depois do encontro entre ambos, no Salão Oval da Casa Branca, em maio. O adjetivo escolhido não é dos mais efusivos, mas também não é negativo. Antes disso, Trump havia dito que sentiu uma "química excelente" quando cruzou por alguns segundos com Lula nos bastidores do púlpito da Assembleia-Geral da ONU, em Nova York.
Pelo menos um acadêmico que leciona na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro havia comentado com a coluna na semana passada que Lula estava atacando Rubio em seus discursos, mas preservando Trump. Essa fonte identificou a atitude do líder brasileiro como parte de uma estratégia calculada para manter os papéis de presidentes preservados, como uma instância intacta em meio a um ambiente deteriorado de negociação nos escalões inferiores.
No Itamaraty, a percepção é de que o tempo de duração do telefonema entre Lula e Trump, de 1h20, é incomum e "muito bom". De acordo com diplomatas, houve "muita conversa" e em "tom cordial". Os dois presidentes estavam acompanhados de "um monte de gente ao redor" - assessores técnicos ligados aos temas em questão.
Apesar da percepção inicialmente positiva, eles disseram que é preciso "aguardar as cenas dos próximos capítulos, dada a natureza do exercício do poder lá nos EUA". Uma das dificuldades da negociação está no fato de que o governo Trump funciona "loteado", com diversos grupos internos, às vezes conflitantes, tomando decisões contraditórias sobre os mesmos assuntos.
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