Juros altíssimos: Não é só o Galípolo, é a arquitetura do BC
Banco Central deve ter liberdade, mas objetivos, horizonte e critérios de avaliação precisam refletir de maneira equilibrada os custos da política monetária para toda a sociedade No artigo “Qual Gabriel Galípolo está no Banco Central?”, o economista Gustavo Pessoa levanta uma questão pertinente ao contrapor a imagem do intelectual à atuação prática do atual presidente da autarquia.
No entanto, proponho um deslocamento do foco: a pergunta fundamental talvez não seja “qual Galípolo ocupa a cadeira do BC?”, mas sim “o que acontece com diferentes economistas quando passam a decidir dentro da arquitetura institucional do Banco Central?”.
Para responder a essa questão, é necessário incorporar os conceitos do economista Mauricio Luperi sobre autonomia capturada e dominância epistêmica – a capacidade de um grupo ou corrente teórica de impor sua visão de mundo, saberes e critérios como verdades praticamente incontestáveis.
Nesse sentido, o caso do BC evidencia, eventualmente, que o problema não se reduz à captura pessoal ou partidária.
A autonomia formal da instituição opera dentro de uma estrutura de incentivos, fontes de informação, modelos matemáticos e convenções que tendem a produzir decisões em uma direção invariável, independentemente de quem ocupe a presidência.
O fato de o Copom ser um órgão colegiado torna ainda mais necessário explicar o fenômeno para além da biografia de seu presidente.
É nesse cenário que a dominância epistêmica se insere e completa o mecanismo.
Determinadas interpretações sobre inflação, expectativas e hiato do produto adquirem o monopólio do diagnóstico antes mesmo do voto.
Em um ambiente de dominância financeira, essa arquitetura tende a preservar a elevada remuneração dos ativos, com efeitos distributivos claros e regressivos.
Se diretores com trajetórias díspares chegam ao Copom e as decisões continuam convergindo para o mesmo padrão, talvez seja a arquitetura – e não a biografia – que deva estar no centro da análise.
Sendo o problema institucional e estrutural, não basta trocar nomes; é preciso mudar as regras sob as quais eles decidem.
A reforma central passaria pela instituição de um verdadeiro mandato duplo, colocando a estabilidade de preços e o pleno emprego no mesmo nível hierárquico, tal como ocorre em outros regimes monetários.
Atualmente, no Brasil, a estabilidade de preços é o objetivo fundamental, enquanto o pleno emprego ocupa posição subordinada ou, até, como ameaça, embora esteja previsto em lei como objetivo do BC.
O mandato duplo obrigaria o Copom a explicitar e ponderar os custos de suas decisões sobre emprego e atividade, e não apenas sobre a inflação.
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