Fábrica fundada há mais de 200 anos em Salvador esconde história surpreendente
A história da industrialização brasileira também passa por Salvador e pela trajetória de empresários suíços que construíram grandes fortunas.
Essa relação, marcada pelo comércio internacional, pela instalação de fábricas e pela exploração do trabalho escravizado, é tema do livro Do diamante ao tabaco: a primeira indústria suíça no Brasil (1736-1913), da historiadora Sylvie Doriot Galofaro.
A obra será lançada na terça-feira (13), a partir das 15h, no Museu Geológico da Bahia, com palestra da autora.Publicado pela Editora Capivara, o livro reúne documentos encontrados na Europa e no Brasil, além de entrevistas e imagens históricas, para reconstruir a atuação de famílias como Meuron, Pury, Pourtalès e Borel.
A pesquisa percorre diferentes momentos das relações comerciais entre a Europa, Portugal e o Brasil, com destaque para a Fábrica Imperial Arêa Preta, fundada em Salvador em 1817 por Auguste-Frédéric de Meuron, para a produção de rapé.Ao revisitar essa trajetória, Sylvie também questiona a imagem de grandes benfeitores atribuída a alguns desses empresários.
Embora parte de suas fortunas tenha sido destinada à construção de hospitais, escolas e outros equipamentos públicos, a historiadora ressalta que esses recursos estavam ligados à exploração da mão de obra escravizada.
“É fundamental reconhecer que todos esses lucros não teriam sido obtidos sem o trabalho forçado”, afirma.40 anos de pesquisa Foto: Divulgação O interesse de Sylvie pela presença suíça no Brasil começou durante seus estudos em Neuchâtel, na Suíça, quando conheceu a trajetória de David de Pury, comerciante que morreu em 1786 e doou anonimamente sua fortuna à cidade.
Em 1986, aos 23 anos, após duas viagens ao Brasil, a historiadora se interessou pelas relações comerciais estabelecidas por Pury entre cidades europeias e regiões brasileiras produtoras de diamantes e pau-brasil.
“Essa história sempre me intrigou”, conta.Durante sua formação no Instituto de Etnologia de Neuchâtel, Sylvie conheceu a história de James-Ferdinand de Pury, comerciante no Brasil entre 1846 e 1879, que doou sua casa para abrigar o Museu de Etnografia.
Em 1988, veio ao Brasil para pesquisar as escolas de samba do Rio de Janeiro e o centenário da abolição da escravidão, período em que entrevistou Dona Zica, esposa de Cartola, Joãozinho Trinta e Martinho da Vila.
Na época, tentou abordar a trajetória dos comerciantes suíços, mas foi desencorajada.
“Um dos meus professores me disse: ‘Ele é um escravocrata, você não pode falar sobre isso’”, relata, referindo-se a James-Ferdinand.
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