O público voltou ao cinema, mas a educação ficou em casa
A Semana do Cinema chegou ao fim nesta quarta-feira, 16, depois de mais uma edição com ingressos a partir de R$ 10 em todo o país.
Num momento em que o sofá, o controle remoto e os catálogos quase infinitos do streaming disputam diariamente a atenção do público, qualquer iniciativa capaz de colocar mais gente diante de uma tela grande merece aplausos.Cinema não é apenas o lugar onde se assiste a um filme.
É equipamento cultural, porta de entrada para outras histórias, outras línguas, outros mundos.
E há algo que nenhuma televisão de 70 polegadas consegue reproduzir por completo: a experiência coletiva.
A sala escura, o silêncio antes da primeira imagem, uma gargalhada que se espalha pelas poltronas, o susto que percorre uma fileira inteira, aquele segundo de suspensão antes dos créditos subirem...O problema é que viver essa tal experiência coletiva tem ficado cada vez mais insuportável.No último sábado, fui assistir a Pressão, drama histórico que transforma meteorologia, Segunda Guerra Mundial e as horas que antecederam o Dia D em matéria-prima para uma tensão surpreendentemente eficiente.
É daqueles filmes com cara de Oscar, fotografia sóbria, diálogos afiados, atmosfera claustrofóbica e um elenco de peso liderado por Andrew Scott e Brendan Fraser.É um filme de diálogos, decisões, mapas, previsões e silêncios.
Exige concentração.
Ou, sendo menos ambiciosa, exige que as pessoas ao redor simplesmente não atrapalhem.Parecia pedir demais.Ao longo da sessão, havia conversa em volume suficiente para dispensar legenda, celular reproduzindo áudio, tela acesa, lanterna ligada e até gemidos aleatórios cuja função narrativa jamais consegui compreender.
Se a intenção era acrescentar uma camada de comédia ao drama de guerra, a intervenção da plateia fracassou também como roteiro.E não, o elenco da falta de educação não era formado apenas por adolescentes.Adolescentes ainda conseguem reivindicar uma espécie de licença para fazer bobagem.
Não justifica, claro, mas há pelo menos o álibi da idade.
O problema é perceber adultos plenamente alfabetizados, capazes de comprar ingresso, escolher poltrona e aparentemente administrar a própria vida, descobrindo somente depois que as luzes se apagam que não conseguem ficar cem minutos sem conversar.Como jornalista cultural e editora do Cineinsite, vivi boa parte dos meus dias justamente cadastrando sessões, conferindo horários, filmes e programações dos cinemas.
Talvez por isso a coisa me incomode ainda mais.
Há uma ironia particular em passar um longo tempo organizando informações para que as pessoas encontrem uma sessão e, quando finalmente entro em uma delas como espectadora, descobrir que parte do público parece ter esquecido para que serve uma sala de cinema.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em atarde.com.br — o conteúdo pertence a A Tarde.