O que diz o maior estudo já realizado sobre a influência da genética na personalidade
A delicada relação entre pais e filhos, é praticamente impossível encontrar quem não enxergue algum traço de sua própria personalidade na prole assim que ela começa a desbravar o mundo e expressar suas vontades.
Tão difícil quanto, no sentido contrário, é deixar de reconhecer-se nos progenitores, décadas mais tarde, diante dos espinhos da vida adulta, quando o caráter já está delineado.
Há milhares de anos a transmissão das características ligadas à identidade intriga pensadores e cientistas, que buscam demarcar até onde os seres humanos respondem ao meio em que estão inseridos e o tanto que herdam do jeitão de quem lhes deu a vida.
Pois o maior estudo já conduzido sobre o tema, recém-publicado na revista científica Nature, responde a esse questionamento de maneira inédita e traz uma descoberta que surpreendeu até os especialistas: a influência da genética é maior do que se imaginava.
HERANÇA INESCAPÁVEL – A professora <strong>Maria Luiza Alves</strong>, 22 anos, até tentou se afastar da extroversão e do gênio forte da mãe, <strong>Tatiana</strong>, mestre como ela, mas foi missão impossível.
“Somos muito parecidas”, diz ./Arquivo pessoal Chegar a tal conclusão exigiu um esforço conjunto de vasta envergadura.
Coordenados pela Universidade de Michigan, 138 pesquisadores de mais de quarenta instituições de ensino e hospitais de diferentes países analisaram mais de 1 milhão de amostras de DNA disponíveis em bancos genéticos e as cruzaram com os contornos da índole de quem as forneceu, previamente mapeados.
Chegou-se então a 1 260 variantes passadas de pais para filhos que podem influenciar a formação da individualidade — dois terços delas identificadas pela primeira vez.
Também consideraram no levantamento a origem geográfica e faixas etárias diversas para eliminar fatores externos capazes de alterar o resultado.
“O grande mérito do trabalho está em ampliar radicalmente o poder de observação da genética da personalidade, permitindo testar hipóteses que antes esbarravam na falta de amostras”, afirma Elliot Tucker-Drob, que participou da investigação.
Esmiuçados sob a lupa da ciência, os dados revelaram que até 16% do perfil psicológico de uma pessoa são hereditários.
Parece pouco, mas está muito além do que se pensava antes, quando a análise era baseada na observação.
Encontrar essas variantes exigiu imenso trabalho, já que o DNA humano tem cerca de 20 000 genes que contêm 3 bilhões de compostos químicos organizados em pares, com informações sobre a composição do corpo humano.
Entre um indivíduo e outro, a grande maioria da sequência é idêntica.
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