Sem luz, água, nem transporte: as frustrações da minha vida em Cuba e seus apagões
A Odisseia Diária de Um Cubano na Maior Crise Energética do País
Gustavo é um rapaz de vinte e cinco anos que ainda acredita em uma rotina. Acordo cedo para treinar na academia, depois segue para o trabalho em uma galeria de arte no coração de Havana, e aos fins de semana dedica-se a uma paixão: frequentar espaços culturais e registrar suas impressões em texto para uma revista. Para a maioria dos profissionais de sua idade, esse seria um dia normal. Mas em Cuba, normalidade é um luxo que poucos podem desfrutar.
A ilha caribenha enfrenta neste momento a pior crise de energia de sua história recente, e tudo muda quando a luz desaparece. Não se trata apenas de apagões ocasionais: as interrupções no fornecimento de eletricidade chegam a dezesseis horas diárias. Essa escassez não é um fenômeno isolado que afeta apenas o setor elétrico. Ao contrário, ela provoca uma reação em cadeia que permeia praticamente todas as dimensões da vida cotidiana das pessoas.
Os Efeitos Práticos da Falta de Eletricidade
Quando não há energia, não há também transporte urbano confiável. Gustavo precisa viver em uma constante estratégia de planejamento. Cada vez que sai de casa, ele pesa bem seus movimentos, pois não ter como voltar significa talvez pagar por um táxi particular. E esse gasto não é insignificante: uma corrida simples pode consumir algo próximo a um terço do salário mensal que ele recebe.
A questão vai além do deslocamento pela cidade. Semanas inteiras passam sem que sua residência tenha abastecimento de água adequado. As noites se transformam em períodos de incômodo extremo. Quando o termômetro sobe e não há ar-condicionado ou ventilador funcionando, Gustavo e muitos cubanos como ele buscam refúgio nas sacadas com apenas uma lanterna, tentando contrariar o calor sufocante. Conforme ele mesmo desabafa, essa ausência de energia contamina até as coisas nas quais ninguém pensaria que ela fosse relevante.
O Pano de Fundo: Por Que Cuba Enfrenta Esse Colapso
A crise não surgiu do nada. O Sistema Elétrico Nacional, gerenciado pela estatal União Elétrica, já deu sinais alarmantes de seu esgotamento. Desde o começo de 2026, o sistema inteiro entrou em situação de colapso sete vezes. Cada um desses eventos deixou milhões sem acesso à energia.
A raiz do problema está na arquitetura deficiente da infraestrutura energética cubana. As instalações que alimentam a nação têm décadas de idade. Tecnologicamente, estão muito aquém do que seria necessário para um país moderno. Ninguém investiu recursos significativos em mantê-las funcionando ou em modernizá-las. Por isso, as centrais que geram energia através de combustão de combustíveis fósseis produzem apenas uma pequena fração de sua capacidade nominal.
Pesquisadores do Grupo de Estudos de Cuba realizaram uma análise profunda sobre a questão. Eles chegaram à conclusão de que o estado crítico da rede elétrica é resultado de "recursos internos insuficientes com prioridades mal definidas, agravados por uma fraca capacidade de implementação". Em outras palavras, não há dinheiro suficiente, não há clareza sobre aonde o dinheiro deveria ir, e nem há competência institucional para executar as reformas necessárias.
A Questão Internacional e o Bloqueio Energético
O que complica ainda mais a situação é que o sistema elétrico cubano depende fundamentalmente de combustíveis fósseis para funcionar. A ilha não produz a quantidade de petróleo necessária para suprir essa demanda. No passado, a Venezuela vinha fornecendo grande parte do combustível de que Cuba precisava. Mas essa fonte de abastecimento foi interrompida este ano.
A razão é política. Os Estados Unidos, sob a administração do presidente Donald Trump, estabeleceu uma série de pressões contra a ilha. No início de 2026, Trump e seus aliados ameaçaram impor tarifas de importação contra qualquer país que enviasse petróleo para Cuba. Simultaneamente, houve a detenção do presidente venezolano Nicolás Maduro, o que precipitou o colapso da cooperação bilateral entre os dois países.
Funcionários de alto escalão do governo americano deixaram claro que o objetivo estratégico desses embargos energéticos é aumentar a pressão política sobre o governo revolucionário cubano, buscando sua queda. O que era antes apenas um conflito diplomático agora ganhou dimensões humanitárias concretas nas vidas de pessoas comuns.
A Conversa com Quem Vive Isso
A rede de teledifusão BBC, através de sua divisão em língua espanhola, decided aproximar-se dessa realidade de maneira mais humana. Seus repórteres mantiveram contato com Gustavo durante uma semana inteira, acompanhando como seus dias se desenrolam sob essas condições de escassez extrema. O objetivo era não apenas coletar números e datas, mas compreender quais são as consequências tangíveis e contínuas dessa crise para um cubano médio.
Gustavo mora na região leste de Havana e trabalha no centro da capital. As duas áreas estão separadas pela baía que corta a cidade. Aquele trajeto, que em circunstâncias normais seria simples, torna-se uma aventura repleta de incertezas quando o transporte falha e os horários dos apagões não são previsíveis. Numa terça-feira específica, ele acordou com eletricidade em casa. Em suas anotações, Gustavo registrou essas palavras simples: "Tive sorte". Esse é o nível de esperança a que se reduziu a vida cotidiana em Cuba. Ter energia para passar o dia se tornou questão de sorte, não direito.
O Que Acompanhar
Os desdobramentos dessa crise tendem a se intensificar ou a se aliviar conforme a situação política internacional evoluir. O comportamento dos Estados Unidos em relação aos embargos energéticos seguirá sendo crucial. Qualquer mudança na política americana ou nas sanções impostas a fornecedores de combustível poderia alterar o cenário. Do lado externo, também importa monitorar se a Venezuela consegue recuperar sua capacidade de exportação de petróleo e retomar o fornecimento. Internamente, qualquer decisão do governo cubano sobre investimentos em infraestrutura energética ou busca de novas fontes de geração também será relevante para determinar se a crise se manterá nesse patamar crítico, piorará ainda mais, ou começará uma lenta recuperação. Enquanto isso, Gustavo e milhões de cubanos continuarão contando dias em que acordam com luz.
Principais pontos:
• Cuba enfrenta apagões que chegam a dezesseis horas diárias, a pior crise energética de sua história recente
• O Sistema Elétrico Nacional depende de combustíveis fósseis que faltam devido ao bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos
• A infraestrutura elétrica é antiga e tecnologicamente obsoleta, com falta de investimentos em manutenção e modernização
• Pessoas comuns como Gustavo enfrentam dificuldades extremas no trabalho, transporte, acesso à água e qualidade de vida devido aos apagões contínuos
Matéria produzida pela Redação 5News com apoio de inteligência artificial a partir da apuração de UOL Notícias — os fatos do episódio vêm da matéria original; o contexto usa informação pública consolidada. Veja nossa política editorial. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.