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Política

‘Nem Tudo é Paz e Amor’: filme narra versão de filhos de famílias psicodélicas

Brasil de Fato ·
‘Nem Tudo é Paz e Amor’: filme narra versão de filhos de famílias psicodélicas

Um espaço dedicado à valorização da interface brasileira do universo das bioculturas, dos psicodélicos e dos estados ampliados de consciência. Por Caroline Apple

Minha filha adolescente já me escondeu mais de uma vez das amigas e dos amigos dela. Tenho certeza. Não porque ela tenha vergonha de mim (ou um pouco, normal), mas porque, em alguns momentos, ela entende que é mais fácil não explicar quem eu sou ou o que eu faço por aí. E tenho certeza de que esse silêncio não é só dela, mas também de muitas crianças que crescem dentro de “famílias psicodélicas”.

Há pelo menos dez anos trabalho como jornalista especializada na cobertura de cannabis, psicodélicos e bioculturas. Para mim, esse nunca foi apenas o tema em que me tornei setorista, como falamos no jornalismo. É parte da minha própria vida, mesmo antes desse aprofundamento, uma vez que meu posicionamento político sempre contemplou pautas progressistas vistas por muitos como tabu.

Quem acompanha meu trabalho sabe que sou do Daime, uma religião amazônica que utiliza a ayahuasca em contexto ritualístico. E que estudo também a linha do Santo Daime , que tem a Santamaria (cannabis) como uma das plantas consagradas nos rituais. Nada é escondido dentro de casa e, no meu caso, nem fora. Minha filha cresceu vendo essas práticas com naturalidade. Mesmo esse caminho tendo se intensificado com o meu ingresso no universo das medicinas tradicionais indígenas, meu passado de uso de psicodélicos e outras substâncias nunca foi segredo.

Mesmo que ela demonstre zero interesse por esses temas, ela está informada. O tal do extraordinário é ordinário dentro da nossa casa. Mas nosso cotidiano tem toques fractais que a maior parte das famílias não tem e que podem mudar os rumos de como uma criança se relaciona com o mundo.

E é essa tensão que propõe o filme-documentário “Nem Tudo é Paz e Amor”, dirigido por Betão Aguiar, que estreia nos cinemas ainda neste mês. A obra acompanha filhos de famílias ligadas à contracultura brasileira e propõe olhar para como a psicodelia, as drogas, a liberdade e a resistência política também atravessaram a experiência da infância.

Ainda não assisti ao filme, mas a proposta é ótima para levantarmos esse tema, porque é comum as crianças serem esquecidas nesse processo e vistas como um apêndice de seus pais, sem grande poder de tomada de decisão, mas sob forte influência das escolhas de seus parentes.

Falamos bastante sobre usuários, sobre pesquisa científica, sobre redução de danos , sobre políticas públicas e, mais do que nunca, sobre o potencial terapêutico da cannabis, dos psicodélicos e das bioculturas. Mas quase nunca falamos dos desafios enfrentados por quem cresce dentro dessas famílias. Pode parecer muito interessante e descolado para alguns, mas, como o nome do documentário diz: “nem tudo é paz e amor”.

Diferentemente do imaginário construído décadas atrás com base na vida de artistas da contracultura, as famílias psicodélicas hoje são compostas por pessoas professoras, jornalistas, médicas, advogadas, comerciantes, servidoras públicas, empreendedoras, donas de casa e outros trabalhadores das mais diversas áreas.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.brasildefato.com.br — o conteúdo pertence a Brasil de Fato.

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