Pernambuco registra 1,7 mil crimes violentos contra a população LGBT no 1º semestre de 2026; mulheres são maioria das vítimas
No dia cinco de agosto a bombeira civil Raelly Braz, uma mulher transexual de 30 anos, foi encontrada morta dentro de casa, em Camaragibe, e seu corpo tinha ferimentos de faca. Um homem de 63 anos foi preso pela Polícia Civil como principal suspeito do transfeminicídio. Duas semanas antes, em Garanhuns, a vítima foi Lorena Raíssa, também trans, dançarina de quadrilha junina de 25 anos e residente em Canhotinho. Um famoso tatuador local admitiu tê-la asfixiado num motel. Em fevereiro, Samanta, de 32 anos, foi morta a facadas pelo companheiro no município de Trindade, Sertão pernambucano.
Casos como estes podem estar subestimados, segundo Ciro Henrique Santos, coordenador do Observatório LGBTI de Pernambuco. “Muitas vezes os policiais consideram o sexo biológico, o que é uma revitimização dessas pessoas”, avalia ele, que classifica essa atitude como “apagamento” e mais uma violência. “Realizamos uma conversa com a Secretaria de Defesa Social (SDS) sobre a necessidade de levar em consideração a identidade de gênero nos registros das vítimas, mas eles alegaram que a vítima é quem precisa solicitar um registro de identidade de gênero no boletim de ocorrência, como se a responsabilidade fosse da vítima”, critica o ativista.
Um exemplo foi o caso de Samanta, vítima de transfeminicídio no Sertão pernambucano. “Depois de morta, ela constava na plataforma da SDS como vítima masculina”, reclama Ciro. O professor Jorge Noronha, coordenador da Rede LGBT do Interior de Pernambuco, lembra que a imprensa também tem responsabilidade nessas situações. “No caso de Lorena eu recebi no celular a notícia dizendo que um homem fora encontrado morto. Sempre que é um corpo trans, eles usam o nome do registro de nascimento. Lorena já tinha o documento retificado, não havia motivo para aquilo”, lamenta Noronha, que contatou os blogs locais chamando atenção para isso e os textos foram corrigidos.
Membro do Conselho estadual dos Direitos LGBTQUIAPN+ e vice-presidente do Conselho de Direitos Humanos de Garanhuns, Jorge diz que ficou surpreso com como o caso Lorena afetou a cidade. “Sabemos que é um tipo de crime recorrente no Brasil, mas não havia um registro deste em Garanhuns. Isso reacendeu medos e despertou novos. Muitas pessoas LGBTs divulgaram depoimentos emocionados, mas a comoção foi além da comunidade”, recorda. Naquela noite, Lorena foi lembrada com um minuto de silêncio em todos os palcos do Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), principal evento cultural da cidade. Mas nada além disso.
Ainda na reunião com a gestão, Ciro Santos lembra que os profissionais da SDS não conheciam o formulário “Rogéria”, um documento lançado em 2024 pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para ajudar a avaliar o nível de risco ao qual uma pessoa LGBT está exposta.
Até o fim de junho, a SDS do Governo de Pernambuco havia contabilizado 1.734 crimes violentos contra pessoas LGBT no estado, uma média de 9,6 registros por dia. No 1º semestre foram cinco homicídios de pessoas deste grupo — os casos de Lorena e Raelly não foram contabilizados, já que ocorreram no 2º semestre.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.brasildefato.com.br — o conteúdo pertence a Brasil de Fato.