O risco de enaltecer o Flamengo por qualquer coisa
Bastou o Flamengo eliminar o Cruzeiro da Libertadores com dois golaços que o encantamento começou: sublime, futebol total, outro patamar. O próprio perfil rubro-negro nas redes sociais zombou confortavelmente de Gerson, chamando o ex de pipoqueiro. Se o Cabuloso achou desrespeitoso disfarçou bem, curvando-se publicamente diante do adversário.
O mandatário Pedro Lourenço e Fabricio Bruno disseram sem constrangimento que iriam torcer para o Flamengo na sequência da competição. Histórico torcedor cruzeirense, Samuel Rosa classificou a atitude como "subserviência de merda". O homem sabe usar as palavras.
Independentemente dos títulos, o Flamengo tem há anos o melhor elenco do Brasil. Os maiores talentos individuais. A maior quantidade de jogos bonitos. Obviamente, o maior orçamento. Difícil discordar. O que me chama atenção é a velocidade com que algumas pessoas estão dispostas a alçar o clube aos céus, dedicando-lhe adjetivos que costumam pedir parcimônia.
O Rubro-negro passou pelo Cruzeiro por um gol de diferença, com direito a bola salva em cima da linha por Jorginho, na partida de volta. Foi dominante em alguns momentos, mas não converteu o caminhão de chances em gols e, por pouco, não leva um susto dentro de casa. Futebol é beleza, é volume, mas essencialmente é resultado. E o resultado foi 3 a 2 no agregado. No Brasileirão, sua liderança parece ser uma questão de tempo — só não aconteceu ainda.
Arrascaeta é, para mim, o mais extraordinário jogador a atuar no Brasil nesta década. Pedro, o tipo de centroavante que me faz verdadeiramente gostar de futebol. E são apenas alguns nomes de um conjunto estrelado, talentoso, contagiante. Que foi eliminado da Copa do Brasil pelo Vitória, no tempo normal. Que teve dificuldade contra o Cruzeiro. Que ganha e perde, como todos os outros.
Por alguma razão (escolha a sua), um bom jogo já leva bastante gente a colocar o clube na chave do divino. Isso é perigoso, e não só para o Flamengo. A barra da genialidade do país que produziu Pelé, Garrincha, Ronaldo, Rivaldo, Romário e companhia precisa ser mais alta, sob o risco de continuarmos medíocres internacionalmente. Sob o risco de a soberba produzir a queda.
Faz sentido exigirmos mais, especialmente de quem não hesita em se dizer especial.
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