Endividamento recorde leva argentinos às ruas contra política econômica de Milei
Nos últimos 20 meses, a inadimplência no sistema financeiro tem crescido de forma acelerada e assustadora, a ponto de, nesta semana, ganhar forma de protestos populares. O problema afeta quase 21 milhões de argentinos, o equivalente a 95% da população economicamente ativa. Destes, 6 milhões estão inadimplentes, o equivalente a 30%, e metade deles é considerada "irrecuperável".
Dentro do sistema financeiro, são 26,1% de inadimplentes, representando 17,5% de todos os empréstimos, um número sete vezes maior que o de dois anos atrás. Para se ter uma ideia da magnitude do problema, em outubro de 2024, a inadimplência era de 2,5% de todos os empréstimos.
Um quarto da massa salarial do país está comprometida com a inadimplência. Os argentinos devem aos bancos, às carteiras virtuais, aos cartões de crédito, aos sistemas de crédito dos supermercados e aos agiotas do bairro.
Os empréstimos foram para gastos básicos como comprar comida, pagar luz, gás, água. São montantes relativamente baixos, mas que se tornaram impagáveis devido a uma combinação explosiva de redução do salário, perda do emprego, aumento do custo de vida e taxas de juros estratosféricas.
No setor bancário, os juros vão de 55% a 172%, enquanto nas carteiras virtuais sobem para 260%, mas custos financeiros ocultos elevam as taxas para 400%, 700% e até 1.375%. A principal vilã para os juros exorbitantes é a fintech argentina Mercado Pago, que também atua no Brasil.
Nessas carteiras virtuais, com taxas consideradas excessivas, a inadimplência é de 31,5%. Nos sistemas de crédito dos supermercados, chega a 50%. Todos esses números são de créditos a pessoas físicas.
Quando se englobam os créditos às empresas, a inadimplência de todo o setor privado é de 7,6% do total, fazendo da Argentina o país com mais inadimplentes na América Latina. Em comparação, o Brasil tem 3,9%, um número alto, mas menos da metade da Argentina, segundo o Banco Mundial.
Esses números revelam o desespero das pessoas, a preocupação do sistema bancário, a impossibilidade de reativar o consumo na Argentina e as taxas abusivas de bancos e de carteiras virtuais.
Por isso, nesta sexta-feira (21), às 15h, haverá um protesto no depósito de mercadorias da empresa Mercado Livre na cidade de La Matanza, na periferia de Buenos Aires. A empresa também financia as suas vendas com taxas como as do Mercado Pago.
A manifestação é convocada por organizações políticas e movimentos sociais que identificam na empresa a prática de usura. As empresas já foram denunciadas na Justiça pelo Partido Obreiro.
"Apresentamos uma denúncia penal por possível crime de usura. A própria empresa informa taxas com um custo financeiro total de até 1.375,94% anual. Estamos falando de um mecanismo de endividamento que pode confiscar as receitas de trabalhadores e de famílias que recorrem ao crédito porque o salário não é suficiente", explicou o dirigente Gabriel Solano, autor da denúncia.
A Mercado Livre e a Mercado Pago são empresas argentinas que atuam em toda a América Latina, inclusive no Brasil.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em economia.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Economia.