O povo brasileiro e o espírito do tempo
A vitória de Lula nestas eleições presidenciais de 2026 se deu estritamente pela mobilização das massas.
O povo elegeu pela quarta vez, como presidente da República, um homem com quem se identifica. Um brasileiro sem formação acadêmica, nordestino que moldou seus primeiros anos de vida no chão de fábrica; um trabalhador mutilado pela inexperiência e pelo cansaço.
Assim como a maioria dos brasileiros, Lula é um sobrevivente: um sujeito que conheceu derrotas e humilhações, mas que absorveu as intempéries da vida para se moldar. Ele não é propriamente um homem da esquerda tradicional ou um marxista.
Sua formação pragmática advém do mundo da política sindical e partidária, sendo, no final das contas, um conciliador.
O presidente guarda identificação com a velha social-democracia.
Lula é daqueles que acreditam que capital e trabalho podem andar juntos, irmanados — algo tido por alguns como tão utópico quanto um Estado socialista.
Ainda assim, grande parte da burguesia brasileira enxergou nele um radical e, a partir disso, aliou-se ao projeto bolsonarista e ao seu entreguismo privatista. No segundo turno das eleições, tornou-se nítido para a sociedade que a soberania do Brasil e os direitos sociais dos brasileiros estavam em jogo, sob o risco de extinção diante da possibilidade de uma nova ascensão do projeto bolsonarista ao poder. Espontaneamente, as ruas foram tomadas.
A cada ato eleitoral de Lula, milhares de pessoas se aglomeravam nas capitais e pequenas cidades do país, num verdadeiro levante popular.
Grandes manifestações eclodiram a partir das universidades públicas — como na noite do dia 5 de outubro, em Niterói (RJ) — e muitos desses atos nem sequer faziam parte da agenda oficial da campanha.
Além disso, diversas redes digitais se organizaram à margem da estrutura partidária. Até mesmo a esquerda radical, tão crítica aos governos anteriores de Lula, abraçou a campanha.
Centrais sindicais e partidos fora do eixo CUT-PT foram às ruas promovendo panfletagens em portas de terminais, refinarias e estaleiros, por exemplo.
O risco de mais um mandato focado em desmonte ambiental, arrocho e cortes em áreas vitais como Saúde e Educação foi o combustível que incendiou a mobilização.
Como um rastilho de pólvora, o engajamento tomou os espaços públicos e as redes digitais, a despeito da influência das big techs, que favoreciam discursos da extrema direita. Assim, o povo tomou a frente quando a própria direção do PT se mostrou vacilante na estratégia a ser construída para o segundo turno.
Da Avenida Paulista à Praia de Copacabana, passando pela Cinelândia, Marco Zero, Juiz de Fora, Belo Horizonte, Salvador, Belém, Porto Alegre e tantas outras cidades, Lula foi acolhido e embalado por uma população que enxergou no velho líder uma causa a ser protegida.
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