O argentino que vendeu ao bolsonarismo a mentira das urnas roubadas
Fernando Cerimedo passa seus dias, desde 21 de agosto, no presídio de Palmasola, em Santa Cruz de la Sierra: 180 dias de prisão preventiva, o máximo que permite a lei boliviana, acusado pela Procuradoria de ser “com probabilidade autor intelectual e mediato do delito de feminicídio em grau de tentativa” contra sua companheira, a advogada Nadia Beller, atacada a tiros por dois pistoleiros em 17 de agosto ( La Nación ).
Ele nega tudo.
Sua advogada, Margarita Arce, chegou a sustentar que o ataque foi autoinfligido: “Ouso dizer que foi um ataque autoinfligido” (Folha de S.Paulo).
Para o leitor brasileiro, esse nome tem outra biografia.
É o homem que, em 4 de novembro de 2022, a partir de um estúdio em Buenos Aires, transmitiu para 415 mil espectadores simultâneos que a eleição vencida por Lula havia sido roubada (UOL/Estadão).
Essa transmissão não foi um delírio individual.
Foi o primeiro elo público de uma operação que terminou nos acampamentos em frente aos quartéis, no 8 de janeiro e em uma condenação a 27 anos e 3 meses contra Jair Bolsonaro (g1).
E há algo que no Brasil se sabe menos: nada do que Cerimedo fez lá era novo para quem cobre a política argentina.
O método já tinha sido testado antes.
O que o Brasil recebeu em 2022 foi uma exportação.
A live: 70 páginas apócrifas e uma tese que o TSE já tinha respondido A tese era simples e por isso funcionou: as urnas fabricadas antes do modelo UE2020 não teriam sido auditadas e, nelas, Lula obtinha uma vantagem “estatisticamente impossível de justificar”.
Cerimedo mostrou um dossiê de 70 páginas, “Fraude nas Urnas 2022”, e falou de 22 cientistas que nunca identificou.
O Tribunal Superior Eleitoral respondeu com documentação: “não é verdade que os modelos anteriores… não passaram por procedimentos de auditoria”, e enumerou os Testes Públicos de Segurança de 2012, 2016, 2017, 2019 e 2021, além das avaliações da USP, Unicamp e UFPE (Metrópoles).
O professor Marcos Simplício, da USP, explicou o elementar: um mesmo software gera dois registros de log distintos, e ali estava toda a “anomalia” (BBC Brasil).
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