Morre Zuenir Ventura, e jornalismo perde um dos seus mestres maiores
Jornalista e escritor, meu velho amigo Zuenir Ventura , "Mestre Zu" para os íntimos, era acima de tudo um repórter da vida, da cultura e da grande tragédia social brasileira.
Professor de várias gerações, nas faculdades e nas redações, ensinava pelo exemplo e por suas atitudes sempre dignas em defesa da sua categoria e da liberdade de pensar.
Admirado pelos colegas do chão de fábrica por sua simplicidade, Zuenir sempre teve lado. Nunca se omitiu na defesa dos mais humildes, dos excluídos, dos perseguidos pela ditadura militar.
Só uma vez trabalhamos juntos no mesmo jornal, o glorioso Jornal do Brasil da condessa Pereira Carneiro dos anos 70 do século passado, mas ele no Rio e eu como correspondente na Alemanha.
Passei a admirá-lo ainda mais, ao vê-lo trabalhando na cobertura da primeira Caravana da Cidadania de Lula, no final de 1983. Foi uma longa viagem de 13 dias, do sertão nordestino ao litoral paulista, refazendo o trajeto do futuro presidente quando tinha sete anos e veio num pau de arara para fugir da seca e da fome.
Logo no primeiro dia, uma legião de famintos fechou a estrada para pedir ajuda. Zuenir foi o primeiro a descer do ônibus que levava os jornalistas para ver o que estava acontecendo.
Quando o ônibus de Lula partiu, deixando o então senador Eduardo Suplicy para cuidar dos flagelados, daqueles jornalistas só Zuenir ficou para contar a história numa antológica e comovente reportagem.
Certa vez, no Rio, em meio à campanha presidencial, Zuenir ficou bravo comigo. Como assessor de imprensa do candidato, tinha combinado um encontro com os jornalistas para passar um briefing em frente ao Hotel Novo Mundo, mas me atrasei.
"Da próxima vez, vê se chega no horário. Levei bronca dos colegas que me confundiram com você..." Em comum, tínhamos apenas o fato de sermos velhos e carecas, mas me senti honrado com a confusão.
Anos depois, já em Brasília, no lançamento do livro do Zuenir sobre a morte de Chico Mendes e o julgamento dos assassinos, enquanto ele dava autógrafos, comecei a dar uma folheada, e vi que ele tinha me confundido com alguém ao me citar porque eu não fui ao Acre naquela cobertura.
Procurei logo mostrar o trecho a Mary, a inseparável mulher do amigo. "Não é possível", ela lamentou. Dessa vez, quem se enganou foi ele, e me senti vingado. Como o livro já estava impresso, só nos restou dar uma boa risada.
Para se ter uma ideia do caráter do mestre, Zuenir levou para o Rio e adotou o menino que testemunhou o assassinato, para que ele também não fosse morto pelos pistoleiros que continuavam soltos. Sentiu-se responsável pela vida dele.
A última vez que nos encontramos, por acaso, foi num sábado de manhã em Ipanema quando a gente estava passeando no bairro. Lembro-me de que fomos ao célebre bar Veloso, onde Tom e Vinicius viram a "Garota de Ipanema" e fizeram a música brasileira mais tocada no mundo.
Zuenir estava preocupado com o baixo astral do Luís Fernando Veríssimo, seu vizinho de apartamento, que nem estava mais saindo de casa, cansado de ser xingado por escrever crônicas que defendiam Lula e o PT, isso antes do advento do bolsonarismo.
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