Como se dar bem com seu vizinho sem precisar gostar dele
Talvez o primeiro erro da convivência condominial seja esperar compatibilidade onde o contrato social exige apenas convivência
Whastapp Facebook Linkedin Twitter COMPARTILHAR Talvez a convivência em condomínio fique mais fácil quando abandonamos a expectativa de encontrar pessoas parecidas conosco e começamos a entender como conviver com pessoas que enxergam o mundo de outra maneira.
Existe uma particularidade curiosa na relação entre vizinhos: ela é uma das poucas relações importantes da vida adulta que não começa por escolha. Escolhemos amigos, companheiros, boa parte das pessoas com quem convivemos e, até certo ponto, os ambientes que frequentamos. Quando compramos ou alugamos um apartamento, porém, recebemos junto uma comunidade inteira que não passou por nenhum processo de seleção baseado em nossas preferências.
Do outro lado da parede pode morar alguém que acorda quando você dorme, cria os filhos de uma maneira completamente diferente da sua, considera aceitável um nível de barulho que para você é insuportável, possui outra relação com dinheiro, segurança, animais, funcionários, áreas comuns e regras. Ainda assim, vocês dividirão elevadores, garagem, portaria, orçamento, decisões coletivas e provavelmente alguns anos de vida.
Talvez o primeiro erro da convivência condominial seja esperar compatibilidade onde o contrato social exige apenas convivência.
É justamente aqui que uma leitura socrática e estoica pode ser muito mais útil do que parece.
Sócrates provavelmente não começaria perguntando quem está certo. Começaria tentando descobrir o que realmente aconteceu. Se você acredita que seu vizinho está fazendo barulho de propósito, como sabe que existe intenção? Se considera alguém arrogante porque não respondeu ao seu cumprimento, quais outras explicações seriam possíveis? Se uma família utiliza muito determinada área comum e isso incomoda você, existe de fato uma irregularidade ou apenas um comportamento diferente daquele que você teria?
Essas perguntas parecem filosóficas, mas são extremamente práticas. Boa parte dos conflitos entre vizinhos não nasce do acontecimento original, mas da interpretação que fazemos dele. Uma cadeira arrastada deixa de ser uma cadeira arrastada e passa a significar falta de respeito. Uma reclamação deixa de ser uma reclamação e passa a ser perseguição. Um voto contrário numa assembleia deixa de representar uma divergência e passa a revelar que determinada pessoa “está contra mim” .
A partir desse momento, o fato quase desaparece e começamos a discutir intenções que nunca foram comprovadas.
Existe ainda uma armadilha humana particularmente interessante: somos generosos ao explicar nossos próprios erros e severos ao interpretar os erros dos outros. Quando estacionamos torto, estávamos atrasados. Quando o vizinho estaciona torto, ele é folgado. Quando nossos filhos fazem barulho, foi uma situação excepcional. Quando são os filhos do apartamento de cima, os pais não têm educação. Quando esquecemos uma regra, foi distração.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em oantagonista.com.br — o conteúdo pertence a O Antagonista.