Gaia realiza primeira emissão para financiar microcrédito produtivo
A securitizadora Gaia Impacto realizou hoje a primeira emissão de um certificado de recebíveis para financiar uma instituição de microfinanças que atua na concessão de microcrédito produtivo orientado para micro e pequenos empreendedores. Foram captados R$ 4,1 milhões com 387 investidores.
A emissão foi originada pela organização Crédito Solidário, antigo Banco do Povo, e representa um marco na expansão no Brasil de uma ferramenta de inclusão sócioeconômica criada na década de 70 em Bangladesh pelo 'banqueiro dos pobres' e Nobel da Paz Mohamed Yunus.
Essa é a 17ª operação estruturada pela securitizadora de João Paulo Pacífico, especializada em promover investimentos de impacto social. A Gaia já captou R$ 180 milhões desde 2020, ajudando a financiar diversas cooperativas do MST, empreendedores imobiliários focados em alugel social e negócios como a marca de camisetas Chico Rei, que tem a sua produção dentro de presídios.
"A gente se aprofundou bastante no tema do microcrédito. Neste momento em que as pessoas estão superendividadas, o microcrédito se diferencia por ser destinado a investimento para alavancar negócios e gerar renda. Não é para refinanciar dívida, consumo ou bet. Este é um setor muito importante para a economia e as instituições sofrem há décadas com a falta de recursos para financiar na ponta", diz Pacífico. "Queremos que essa seja a primeira de muitas operações".
A Crédito Solidário foi fundada em 1998 em Santo André, na região do Grande ABC, e já financiou 133 mil microempreendedores da Grande São Paulo, dos quais 60% são mulheres e 40% possuem renda de até 1 salário mínimo. Os empréstimos têm um valor médio de R$ 4.500. A expectativa é beneficiar até 1,2 mil empreendedores com a captação.
O investimento mínimo foi de R$ 1 mil e aconteceu por meio da plataforma de investimentos alternativos Altx. A operação terá cinco anos de duração, com rendimento de 16% ao ano para o investidor — acima da Selic e um pouco acima do 100% do CDI. A carência é de 12 meses para o início do pagamento de juros, com o pagamento do principal mais juros a partir do 48º mês.
Essa será a primeira vez que uma instituição de microfinanças irá acessar o mercado de capitais brasileiro. Normalmente, essas instituições captam recursos com bancos públicos ou privados, com base em uma lei de incentivo ao microcrédito produtivo orientado que permite destinar ao segmento até 2% dos recursos do compulsório — que são os depósitos que os bancos são obrigados a deixar no Banco Central. No início, os bancos privados chegaram a estruturar operações próprias, depois terceirizaram para Oscips. Hoje, muitos simplesmente 'vendem' o dinheiro para os poucos bancos que oferecem essas linhas, ou preferem deixar o dinheiro parado.
"Uma das dificuldades para acessar o recurso do compulsório é a baixa capacidade que as instituições têm de captar, dado que a análise de crédito dos bancos é baseada no patrimônio das Oscips. Como não somos entidades financeiras, nosso patrimônio é baixo", diz Fabio Maschio, CEO da Crédito Solidário.
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