‘Se Eu Fosse Vivo… Vivia’ retrata amor e ausência entre o cotidiano e o fantástico
Quem conhece o cinema de André Novais Oliveira ( Temporada ) sabe que, por trás do naturalismo e das histórias aparentemente banais, existe espaço para o fantástico.
Em Quintal (2015), por exemplo, o diretor já experimentava romper a rotina de um casal de idosos com acontecimentos insólitos, incorporando elementos de ficção científica a um universo reconhecível e cotidiano.
Em Se Eu Fosse Vivo… Vivia , seu novo filme, porém, essa inclinação ganha uma dimensão inédita: o que antes surgia como um desvio pontual da realidade agora se transforma em parte fundamental da narrativa.
Ao acompanhar Gilberto ( Norberto Novais Oliveira , O Dia que Te Conheci ) e Jacira ( Conceição Evaristo , Filhas de Lavadeiras ), casal que atravessa cinco décadas de vida em comum, André parte de um terreno familiar para mergulhar como nunca no místico, na fantasia e na ficção científica.
A mudança de registro é uma aposta corajosa, que expande as possibilidades de um cinema historicamente associado à observação delicada do cotidiano e encontra no fantástico novas formas de abordar o amor, a passagem do tempo e os mistérios da ausência.
Mas antes de falar dessa virada, é preciso discorrer sobre o prólogo, quando André Novais Oliveira nos transporta para a adolescência do casal.
A textura granulada da imagem, a atmosfera dos anos 1970 e a presença dos bailes ajudam a construir um universo que parece resgatado de uma memória distante, como se o próprio filme precisasse encontrar outra materialidade para acessar o passado.
Há algo de particularmente bonito nessa escolha estética: em vez de tratar a juventude de Gilberto e Jacira apenas como uma lembrança ilustrativa, o diretor faz desse período uma experiência sensorial, com a música, os encontros e a atmosfera de uma época compondo o imaginário de um amor que ainda estava começando.
O salto de aproximadamente cinco décadas não funciona apenas como uma mudança cronológica, mas como uma espécie de passagem mágica entre tempos distintos, aproximados pela linguagem do cinema.
A distância entre os jovens apaixonados e o casal que conhecemos no presente parece se dissolver, como se os gestos, os olhares e a intimidade construídos ao longo da vida fossem capazes de conectar duas existências separadas por meio século.
É nesse encontro entre memória, textura e fantasia que o filme encontra uma das expressões mais delicadas de sua ideia central: o tempo transforma os corpos e as circunstâncias, mas não necessariamente apaga aquilo que une duas pessoas.
A partir daí, fica saboroso acompanhar o romance centrado em um casal de terceira idade cuja paixão persiste por tantos anos.
Gilberto e Jacira simplesmente estão ali, vivendo, discutindo, brincando e compartilhando a intimidade construída ao longo de décadas.
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