Bets e novas categorias de consumo pressionam contas das famílias
Faxineira em São Paulo, Aline Oliveira, 36 anos, deve cerca de R$ 5 mil em cartão de crédito e empréstimos, sem considerar os juros. Tudo começou com o desemprego; depois, um salário baixo para o volume de contas.
Mãe de quatro filhos e morando de aluguel, ela quitou parte do que devia, mas não consegue negociar o restante. "É como se você estivesse remando, remando, cansando e nunca conseguisse chegar do outro lado." Oliveira já recorreu a agiota para apostar. Seu marido também colocava dinheiro em jogos.
Em São Caetano do Sul (SP), a engenheira de software Joice Lima, de 31 anos, vive uma realidade mais confortável, mas também passa por um aperto. Mãe solo de dois filhos, Lima viu o aluguel consumindo sua renda ao subir quase 30% em um ano.
Ao mesmo tempo, passou a ter o hábito de viajar e de comprar em marketplaces como Shein. Para pagar outras contas, recorreu ao cartão de crédito — e ao parcelamento.
Passou três anos acumulando dívidas no cartão até trocar tudo por um empréstimo consignado. Pegou R$ 70 mil, que, com os juros, vão passar de R$ 100 mil.
Jogos e novas categorias de gastos, como viagens, estão entre os motivos que explicam — ao lado do maior acesso ao crédito e da alta dos juros — o aumento do endividamento e da inadimplência no Brasil. Desde segunda-feira (21), o UOL publica uma série de reportagens especiais sobre o assunto que abordará as seguintes questões:
Lima se define como membro da classe C, quase encostando na B. Oliveira, com renda inferior, também se encaixa neste grupo formado por quem ganha entre R$ 2.526 e R$ 10.885. Segundo dados do FGV Social, a classe C reúne hoje 130 milhões de brasileiros.
É a classe C que, desde 2013, enfrenta anos de frustração, em que o crédito e os bicos foram necessários para manter o padrão de vida. Isso tudo após a década de 2000, marcada pela ascensão e pelo otimismo, de acordo com Renato Meirelles, fundador do Instituto Locomotiva e autor do livro "Brasil da Maioria: 25 anos da classe C".
Meirelles afirma que, quando o Brasil parou de crescer economicamente, entre 2015 e 2016, o sonho do brasileiro não estacionou. "Ele continuou querendo viajar de avião, mobiliar a casa, trocar o aparelho de TV [como vinha fazendo antes], só que a renda não acompanhou; o crédito, sim", diz. Somado aos juros altos, isso formou o que ele chama de "tempestade perfeita do endividamento brasileiro".
O crédito virou peça central do orçamento da classe C. Segundo pesquisa do Instituto Locomotiva feita em julho de 2023, três em cada quatro brasileiros diziam que só conquistaram boa parte de seus bens porque puderam parcelar. Nesse universo, ter dívida não é visto como problema. "No simbólico da classe C, você só está endividado se a sua dívida está em atraso", diz Meirelles.
O problema aparece no imprevisto. "Uma filha que quebra o braço ou a moto que estraga e te tira do trabalho por três ou quatro dias", enumera. "Quando você tem um juro como o do Brasil, esse imprevisto vira uma grande bola de neve."
Enquanto aumentavam o uso do cartão de crédito, os consumidores se viram também diante de novas categorias de gastos que antes não existiam e que, agora, pesam no bolso das famílias.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em economia.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Economia.