Recompra de Treasuries alivia estresse do mercado, mas não muda tendência dos juros
Na última quarta-feira (19), o Departamento do Tesouro dos dos Estados Unidos (EUA) anunciou uma operação ampliada de recompra de títulos de longo prazo , dobrando o volume destinado aos papéis com vencimentos entre 10 e 20 anos e entre 20 e 30 anos.
A medida, que ficará em vigor entre 9 de setembro a 4 de novembro, foi anunciada um dia após uma forte onda de vendas de títulos públicos, que provocou uma disparada dos juros globais.
O movimento refletiu a crescente preocupação dos investidores com a inflação e a trajetória fiscal dos EUA, em um cenário marcado por tensões geopolíticas e pela pressão dos preços de energia, impulsionada pela recente valorização do petróleo .
O rendimento ( yield ) da Treasury, de 30 anos – referência para hipotecas imobiliárias de longo prazo nos EUA –, por exemplo, atingiu na terça-feira (18) o nível mais alto desde 2007 , reforçando os temores do mercado em relação ao custo do endividamento da maior economia do mundo.
Apesar da iniciativa do Tesouro norte-americano, estrategistas avaliam que o impacto da medida sobre os juros dos Treasuries deve ser limitado no curto prazo.
“Os investidores acreditam que [a decisão de aumentar a recompra de títulos] é um movimento estéril, que não resolve os problemas que estavam por trás da alta nas taxas de longo prazo e que não deve ser capaz de impedir novos aumentos nos rendimentos dos Treasuries de longo prazo por si só”, avalia Leonardo Matos, analista de inteligência de mercado da StoneX.
Segundo o especialista, a recente escalada dos juros reflete principalmente as preocupações com a inflação e o quadro fiscal dos Estados Unidos.
“Os EUA incorrem em déficits fiscais amplos há muito tempo e [o governo] não tem mostrado nenhum apetite por fazer uma consolidação fiscal.
Cortar gastos não é uma prioridade nem do Executivo nem do Legislativo neste momento”, disse.
A avaliação é compartilhada por Peter Schiff, economista-chefe e estrategista global da Euro Pacific Asset Management (EPAM), conhecido por prever a crise financeira de 2008.
Na visão dele, a ampliação das recompras pode até elevar os custos da dívida americana, já que o Tesouro passará a substituir passivos de longo prazo por novas emissões em condições menos favoráveis.
Para Schiff, o resultado pode ser um crescimento ainda mais acelerado da dívida pública e o aumento das pressões inflacionárias.
“O dinheiro para pagar por isso será, no final das contas, criado pelo Fed, levando a inflação às alturas”, afirmou Schiff, em publicação na rede social X.
Ele acrescentou que a decisão do Tesouro pode enfraquecer o dólar, impulsionando os preços do petróleo e de outras commodities.
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