O suicídio de um velho comunista
Todo dia primeiro de setembro, como hoje, meu pai mergulhava num silêncio quase sepulcral. Criança, eu não entendia o motivo. Quando meus irmãos e eu insistíamos em puxar conversa, minha mãe o protegia e nos mantinha fora do alcance.
Só na adolescência fui juntar as peças, ouvindo um pedaço de conversa aqui, outro acolá. Nessa data, em 1960, meu avô Wolf tinha cometido suicídio, enforcando-se na modesta fábrica têxtil de sua propriedade. Meu pai só tocaria no assunto nos últimos anos de vida, sempre de forma contida.
Interromper a própria existência é uma ferida para o judaísmo. Entre os judeus comunistas, pior. Para os religiosos, representa uma violação da disposição divina sobre nossos destinos. Para os revolucionários, quase sempre significa alguma forma de covardia.
Não conheci esse avô, morto aos 53 anos. Ainda assim, sua história me é muito familiar. Nascido em Varsóvia, em 1907, era militante comunista desde garoto. Revoltado com um pai rico e carola, fugiu de casa aos nove anos e foi morar com um tio pobre e marxista, dirigente do Partido Social-Democrata da Polônia e depois do Partido Comunista, o KPP.
No final dos anos 1920, fugido da crise econômica e do antissemitismo, imigrou para o Brasil. Três primos sortearam entre si três destinos: Estados Unidos, Cuba e Brasil. O combinado era que o primeiro a melhorar de vida chamaria os demais. Nunca voltaram a se reencontrar.
Wolf veio para São Paulo, casou-se aqui com uma judia também polonesa, minha avó Riva, montou um pequeno negócio e se juntou aos comunistas brasileiros. Até meados dos anos 1950, seria um dos principais chefes do Setor Judeu do PCB, um dos fundadores da Casa do Povo e o primeiro presidente da Escola Israelita Brasileira Scholem Aleichem.
Integrou também o ICUF – Idisher Kultur Farband (em ídiche, Federação Cultural Judaica), organização mundial comandada por judeus antissionistas, fundada em 1937 com forte apoio da União Soviética e sediada em Paris. As atividades internacionais o levavam a viajar seguidamente para Moscou, onde tinha bastante proximidade com dirigentes do primeiro Estado socialista.
Homem de seu tempo, estava disposto a matar e morrer pela causa da revolução socialista. A vitória do Exército Vermelho sobre o nazismo, em 1945, foi o grande momento de sua geração. A liderança de Josef Stalin era saudada e respeitada como a mão de ferro que garantira o triunfo sobre Hitler e a emergência da URSS como superpotência da classe trabalhadora.
Mesmo tendo críticas ao modelo soviético, sempre guardadas para as instâncias partidárias ou o convívio familiar, sentia-se e comportava-se como um dos milhões de gladiadores das fileiras revolucionárias que atuavam sob a batuta bolchevique.
Esse mundo desabou em fevereiro de 1956, no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, três anos depois da morte de Stalin. Diante dos delegados, Nikita Kruschev, primeiro-secretário do partido, leu o relatório que denunciava supostos crimes do antecessor.
Inúmeros comunistas, mundo afora, receberam aquelas denúncias como uma facada nas costas. Alguns aturdidos pelas revelações alardeadas.
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