Tinha fome; agora tenho food noise
É professor do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP. Também é autor de 'Bel, a Experimentadora'
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"Funcionou mesmo! Nossa, eu desenvolvi uma aversão à comida. Só de olhar, tipo... eu ficava pensando: 'Pronto, agora vou comer um pedaço de chocolate', sabe? Aí eu olhava para ele e, argh, quase vomitava."
Quem fala é uma dinamarquesa usuária de caneta emagrecedora , em entrevista a pesquisadoras que colaboraram conosco. O relato se oferece como conquista sobre o food noise —o tal ruído que não nos deixa esquecer da comida.
Trouxe esse assunto para esta Folha quando ainda era incipiente. Agora que se tornou recorrente, volto à carga com uma crítica ao construto —mote de nosso artigo recém-publicado na revista cientítica Appetite .
O termo food noise tem origem no discurso popular. A hashtag explodiu no TikTok em 2024. Nas entrevistas com pacientes bariátricos que realizamos antes de 2023, nada parecido emerge. É índice de que talvez estejamos diante de um fenômeno que a era das canetas tornou audível.
As definições do ruído divergem: é eco ou chiado? Responde a algo do mundo —o cheiro do bolo, a propaganda de hambúrguer— ou brota sozinho? Não há consenso. Menos ainda sabemos qual nível de ruído seria normal, e sem isso não há como dizer o que, afinal, contaria como cura.
Tampouco sabemos aferi-lo. As escalas disponíveis se sobrepõem a instrumentos antigos de fissura e obsessão alimentar —tudo indica que capturam o mesmo fenômeno. Qual o interesse, então, em rebatizar condições já conhecidas?
Sigamos o dinheiro. Uma das escalas de food noise nasceu em parceria com a WW International, antiga Weight Watchers, que sabe uma ou duas coisas sobre lucrar convencendo alguém de que seu apetite é um problema. A outra pertence à Ro, telessaúde que comercializa o teste pelo qual o consumidor descobre se lhe convém calar a fome com remédio. Quem diagnostica o mal também vende a cura.
O food noise arrasta a fome do campo moral para o biológico. Ao patologizá-la, franqueia caminho à medicalização. Esse deslocamento pode aliviar a culpa do obeso, dirão os otimistas, mas não o estigma que recai sobre ele. Na rua (e em alguns consultórios), ninguém diz que o outro sofre de "ruído alimentar", mas de "cabeça de gordo".
A patologização do desejo não é propriamente uma inovação. Estoicos e epicuristas tomam a paixão ( páthos ) por doença da alma. Para os estoicos, porém, páthos é impulso desobediente à razão. A fome, pois, não é em si paixão, mas impulso; faz-se páthos apenas quando o juízo lhe concede o comando. Os epicuristas, por sua vez, contam entre os desejos naturais e necessários aqueles ligados à alimentação .
O contraste com a tradição contemporânea torna-se mais nítido na terapêutica. Os antigos prescrevem o que Foucault consagrará como práticas de si —incluindo abstinências dietéticas, é verdade—, mas com a finalidade de fortalecer o juízo, e não erradicar o apetite.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.