O país das promessas e o bilhete da esperança
Em meio à turbulência política, a doce ilusão da mega sena nos concede uma trégua.
Domingo, entre as urnas e o sonho de R$ 200 milhões, haverá um país prendendo a respiração.
Meu Deus, quanto futuro cabe num pedaço de papel, quanta vida se adia até domingo? Penso na aposta, no título de eleitor, nas contas que venceram ontem e vencerão na segunda-feira depois dos resultados: da mega sena e da eleição.
Lá fora, os candidatos prometem; aqui dentro, já comprei uma casa para cada filho, ajudei irmãos, irmãs, parentes e amigos.
Eu e minha esposa não teremos tantas preocupações.
Iremos à Grécia, ao Egito e a Jerusalém… antes que o Trump destrua o mundo.
Ainda nem sei os números, mas vejo as janelas, o quintal, as cadeiras de embalo em que descansaremos.
É assim que a esperança me toma: primeiro oferece uma varanda, uma rede, uma tranquilidade depois exige que eu acredite.
E eu acredito, embora alguma coisa em mim ria desse homem rico que continuo sendo sem um tostão.
Duzentos milhões, repito baixinho, como quem experimenta uma palavra proibida durante a oração.
Há pecado nesse desejo de descanso, nessa vontade de nunca mais calcular o preço das coisas? A televisão anuncia salvação entre uma denúncia e outra envolvendo o presidente Lula e o Flávio Bolsonaro, e meu café esfria.
Quero mudar o país, quero mudar de vida, quero sobretudo que cesse este aperto no peito.
Mas, se tudo me fosse dado, o que faria eu desse vazio que dinheiro algum pode preencher? A pergunta incomoda; afasto-a e volto à casa, à varanda, à minha esposa ainda feliz no sonho.
Como somos frágeis diante de uma possibilidade, como ela nos veste de ouro e nos põe de joelhos.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em ac24horas.com — o conteúdo pertence a ac24horas.