Flávio Bolsonaro renega ajuste fiscal; direita já pode defender a democracia
Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e autor de "PT, uma História"
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Não vou falar dos 145 mil mortos por falta de vacina durante a pandemia. Não vou falar sobre a tentativa de golpe que quase deu certo e que, se tivesse dado certo, teria matado milhares de opositores de Bolsonaro usando as armas da República. Não vou falar do fato evidente de que os R$ 134 milhões negociados por Flávio com Vorcaro seriam recompensa pela licença que os bolsonaristas deram para Vorcaro se tornar banqueiro, bem como pelos bilhões que os governadores bolsonaristas deram de dinheiro de aposentados do Rio de Janeiro e do BRB para o Banco Master. Não vou falar da conspiração bolsonarista pelos tarifaços nem da tentativa de melar a eleição presidencial usando uma superpotência estrangeira.
Pode ficar tranquilo, vou falar do único tema que a direita discute utilizando o conceito adequado de risco: ajuste fiscal.
Ninguém no mercado acha que o risco de crise fiscal é zero até o dia em que o país quebra. Mas é assim que os ricos brasileiros medem o risco que o bolsonarismo representa para a democracia: só admitirão que a democracia corre risco quando os adversários da ditadura de direita já estiverem no pau-de-arara por pelo menos seis meses. E olhe lá.
Enfim, Flávio Bolsonaro foi ao Jornal Nacional e disse que não vai fazer os ajustes que o mercado está pedindo. Disse que vai dar aumento real para o salário mínimo , que não vai desindexar os programas sociais do salário mínimo, que não vai mexer na Previdência. Disse inclusive que vai cortar impostos, o que agravaria o desequilíbrio fiscal.
Também disse que não acredita no aquecimento global. Mas calma, já falei que só vou falar de coisas que você, direitista, acha importantes.
O fato de Flávio no JN ter contrariado sua equipe econômica, em si, não é grave: sua equipe econômica é uma porcaria.
Se alguém na Faria Lima declarar apoio a Flávio Bolsonaro , tenha certeza: é gente da série D do mercado querendo outra boquinha como a que o bolsonarismo ofereceu a Daniel Vorcaro. São patrocinadores em potencial da continuação de " Dark Horse ", "The Revenge of Little Banana".
O problema, para Flávio, é que no JN ele aumentou o preço de fazer o ajuste que já prometeu à Faria Lima que fará. Os dois presidentes impichados em nossa história começaram o governo fazendo o que tinham prometido que não fariam.
Mesmo se a proposta fosse séria, seria insuficiente. Pergunte para qualquer economista: não é a corrupção que explica nossa taxa de juros, a estagnação de nossa produtividade, o déficit da Previdência ou a trajetória da dívida pública.
E sim, esses assuntos deveriam ocupar uma parte maior de nosso debate público. Eu topo um ajuste fiscal equânime na distribuição de sacrifícios. Mas não contem comigo para discutir economia enquanto anistia aos golpistas, golpe no STF e submissão aos Estados Unidos estiverem sendo discutidos na sala ao lado.
Gosto de contas públicas equilibradas, mas gosto mais de democracia e de soberania nacional.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.