Trump usará Flávio mais uma vez, mas despreza perdedores e desertores
Flávio, para a surpresa de ninguém que acompanha a sitcom Os Bolsonaros, fugiu para os Estados Unidos com medo das investigações por corrupção e lavagem de dinheiro que pesam contra ele. Foi ajudado pela Casa Branca, que deve usar o senador para arrancar mais concessões do Brasil. Porém, Donald Trump não gosta de perdedores sem poder.
Se Lula, o Itamaraty e o empresariado forem hábeis, em pouco tempo restará a Flávio o papel de youtuber extremista, sem o mesmo carisma que Paulo Figueiredo e Allan dos Santos. Pois, enquanto ele se autoproclama líder da oposição no (auto)exílio, em Brasília a direita já se reorganiza para substituir o clã. A fim de manter os eleitores bolsonaristas engajados, qualquer novo nome — Tarcísio, Michelle, Nikolas — continuará defendendo a "liberdade" do patriarca e dos dois filhos, mas sem querer, de fato, que ela aconteça.
Trump jogou pesado para eleger o senador, que estabeleceria uma relação de vassalagem comercial e geopolítica com os Estados Unidos. Se o Brasil caísse, o México em breve cairia, consolidando o continente americano como quintal dos EUA. Aplicou tarifas, ameaçou o Pix, botou Big Techs para ajudar, fez declarações inaceitáveis, soltou dinheiro para atacar o STF, contou mentiras. Mesmo com tudo isso, perdeu. Sim, a democracia é uma delícia.
Flávio pode ser útil ao governo dos EUA para arrancar mais algumas concessões de Lula. Mas o Brasil não é Venezuela. O mundo inteiro, com exceção de Trump e suas marionetes, reconheceu o resultado da eleição. Maduro era detestado ou desprezado por boa parte da comunidade internacional; já Lula saiu maior da eleição por ter mostrado que é possível conter o avanço da extrema direita e de Trump. É disso que falam as manchetes mundo afora.
A ideia de que o Brasil vive uma ditadura, arrotada pelo bolsonarismo-raiz, não para em pé. E ignora que o partido de Flávio é o maior do Congresso Nacional, conta com seis governadores; o seu irmão foi eleito senador; o outro, deputado federal; a madrasta, senadora.
Trump não gosta de derrotados. Mais do que isso: ele não gosta de pessoas vistas pelo mundo inteiro como derrotadas. As urnas não entregaram ao senador o Palácio do Planalto, mas o papel de líder da oposição, com mais de 59 milhões de votos. Pensando em si mesmo, como sempre acontece com Os Bolsonaros, ele se pirulitou para os EUA, colocando em risco esse papel e desprezando a confiança de seus eleitores. Nesse sentido, o Flávio, o Fujão, veste a fantasia de derrotado. Pode ter a mão de Marco Rubio, em sua cruzada contra a esquerda latino-americana, mas terá o desprezo do presidente.
Essa relação também tem prazo para acabar. Trump deve ter uma derrota dolorida nas eleições de meio de mandato na semana que vem, podendo perder Câmara e Senado. Parlamentares democratas já avisaram que Flávio não terá vida fácil e algumas tentativas de extorquir o Brasil devem ser barradas no Congresso. Se Marco Rubio conseguir ser o candidato republicano em 2028 e vencer, o Brasil terá problemas. Mas, dada a baixíssima popularidade do atual governo, é bom que Flávio torça para a permanência de Giorgia Meloni à frente da Itália.
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