Biografia de Carlos Lacerda esmiúça sua estreita relação com o mundo jurídico
É impossível contar honestamente a história do Brasil suprimindo Carlos Lacerda, assim como é impossível analisá-lo de maneira unilateral, sustenta Mário Magalhães, que lançou recentemente o primeiro volume da biografia desse personagem tão eloquente quanto controverso.
Dentre as facetas de Lacerda está a sua ligação com o mundo jurídico, eclipsada (em alguns verbetes enciclopédicos até suprimida) pela fama do jornalista mordaz e do político impiedoso.
No primeiro volume de “Lacerda: Coração de Tempestade” (Companhia das Letras), Magalhães, jornalista e escritor, detalha a relação do biografado com a esfera forense e o círculo jurídico brasileiro no período compreendido entre 1914-1955.
A reconstituição histórica encaixa uma peça fundamental para a compreensão mais ampla, por exemplo, da técnica de oratória de Carlos Lacerda, cultivada em parceria com grandes mestres do Direito, e de sua formação política.
Inscreva-se no canal de notícias do JOTA no WhatsApp e fique por dentro das principais discussões do país! Foi na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, hoje a Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), entre 1932 e 1933, que Lacerda se tornou um jovem de esquerda e onde também começou a ser forjada sua competência como tribuno.
Na academia, ele conviveu com nomes que se tornariam verdadeiros emblemas das letras jurídicas, como seu amigo por décadas Evandro Lins e Silva, um dos maiores criminalistas do país e ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).
“É gente que vai marcar a história”, diz Magalhães.
Lacerda e Lins e Silva, de esquerda, tinham bons combatentes na academia.
“A direita da faculdade era Santiago Dantas, que, mais tarde, vai ser ministro, deputado, um gigante do pensamento brasileiro.
Na direita da faculdade estava o poeta Vinícius de Moraes”, diz o biógrafo.
“Só mais tarde, em 1939, o Carlos Lacerda é expulso do PCB.
Sempre uso aspas nessa expulsão porque você só pode expulsar de um clube alguém que é sócio dele, e ele não era filiado, por questões burocráticas, ao PCB.
Ele é acusado de traição, eu consigo elucidar todo o mistério envolvendo esse episódio.
Só em 1945 ele vai se tornar um anticomunista.” Depois de ter sido “expulso” do PCB, Lacerda tornou-se um defensor do liberalismo econômico e um crítico mordaz do comunismo, bandeira com a qual ele é historicamente identificado.
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