A nova batalha dos games é fazer o jogador querer ficar
Quem acompanhou os primeiros anos de profissionalização dos e-sports no Brasil deve se lembrar que boa parte das discussões passava pela estrutura. Eu também passei muito tempo pensando nisso. O servidor precisava funcionar, a conexão não podia comprometer a partida e o anti-cheat tinha que acompanhar o crescimento das competições. Ter uma infraestrutura melhor fazia diferença de verdade.
Naquele momento, resolver esses problemas já era uma vantagem competitiva. Hoje, ainda são fundamentais, mas já não bastam. A tecnologia avançou e aquilo que antes podia diferenciar uma plataforma passou a ser, em muitos casos, o mínimo que o jogador espera. Ninguém entra em uma partida pensando que o servidor está fazendo um ótimo trabalho porque não caiu. A expectativa é que simplesmente funcione.
Tenho percebido que a resposta está cada vez menos relacionada apenas à tecnologia. O jogador de hoje tem muito mais opções e interesses que vão além dos games. Uma pesquisa da Gamers Club, com 6.399 participantes, mostra que 76,8% jogam mais de um título simultaneamente . No mesmo levantamento, 60,3% dizem gostar de assistir a séries e filmes em plataformas de streaming .
Esses números ajudam a ilustrar o momento atual. O gamer não vive dentro de um único jogo. Ele circula por diferentes títulos, plataformas, conteúdos e comunidades. A disputa pela atenção ficou muito maior. E quem está dentro desse universo sabe que o jogo nunca foi só o jogo. Tem o amigo com quem você joga toda semana, o streamer que acompanha, o time para o qual torce, a rivalidade que nasceu de uma partida. Tem as conversas, as brincadeiras e aqueles códigos que só quem está dentro entende. Em algum momento, aquele espaço passa a fazer parte da rotina.
Uma empresa pode investir milhões em uma campanha, trazer grandes jogadores, organizar um campeonato enorme e alcançar uma audiência gigantesca. Tudo isso chama atenção. Mas atenção não é a mesma coisa que vínculo . A comunidade percebe quando existe interesse real em participar daquela conversa e quando alguém está apenas tentando encontrar uma maneira de falar com ela. E isso fica ainda mais evidente quando olhamos para os mercados locais.
O universo dos games é global, mas as comunidades não são todas iguais. Cada lugar tem seus jogadores, criadores, times, referências e maneiras próprias de consumir e discutir games. Para mim, entender isso vai muito além de traduzir um jogo ou adaptar uma campanha. É preciso conhecer o contexto e, principalmente, respeitar quem já está construindo aquela comunidade .
Isso vale também para os grandes publishers. Ter dinheiro, escala e tecnologia não garante proximidade. Uma empresa pode ser gigantesca no mundo e, ainda assim, ter dificuldade para criar uma relação verdadeira com os jogadores de determinado mercado.
E confiança é construída justamente nessa relação. Quando uma atualização dá problema, uma regra muda ou uma decisão desagrada a comunidade, a forma como a empresa reage passa a fazer parte da experiência.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em canaltech.com.br — o conteúdo pertence a Canaltech.