'Movimento Sober Curious' fala de parar de beber como só mais uma tendência
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Li "Movimento Sober Curious", de Ruby Warrington, do lugar pouco charmoso de quem é alcoólatra . Não sou uma pessoa apenas curiosa sobre a sobriedade . Para mim, ficar sem beber não é uma experiência temporária, um desafio de 30 dias nem uma oportunidade de alcançar mais produtividade, beleza ou clareza mental. É uma questão de sobrevivência.
O livro propõe que o leitor examine sua relação com o álcool e perceba que não é necessário chegar ao fundo do poço para questionar o hábito de beber .
A ideia tem méritos evidentes. Vivemos em uma sociedade na qual o álcool acompanha comemorações, encontros amorosos, reuniões profissionais, frustrações e até práticas de autocuidado.
Recusar uma taça ainda exige explicações. Nesse sentido, Warrington acerta ao confrontar a normalização da bebida e ao lembrar que ninguém precisa receber um diagnóstico para decidir parar.
O problema começa quando a sobriedade é apresentada com a linguagem sedutora das tendências de bem-estar. Em "Movimento Sober Curious", abandonar o álcool parece, por vezes, integrar o mesmo universo das dietas da moda, dos retiros espirituais e das rotinas matinais cuidadosamente fotografadas.
Dormir melhor, emagrecer, ter uma pele mais bonita e trabalhar com mais eficiência são benefícios possíveis. Para uma alcoólatra, porém, essa embalagem soa superficial —e até cruel.
Eu não parei de beber para acordar disposta e tomar suco verde. Parei porque o álcool estava destruindo minha vida.
A bebida não era um hábito que eu pudesse observar com curiosidade e depois decidir se queria ou não manter. Era uma obsessão, uma necessidade e uma doença marcada por perda de controle. A sobriedade, nesse contexto, não é um acessório para uma vida mais equilibrada. É um trabalho diário, frequentemente doloroso, que envolve medo, vergonha, reparação e ajuda.
Ao transformar a abstinência em escolha de estilo de vida, o movimento "sober curious" corre o risco de apagar justamente as pessoas para quem beber deixou de ser uma escolha.
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Existe uma diferença enorme entre experimentar um mês sem vinho e enfrentar uma dependência. Isso não torna a primeira experiência ilegítima, mas torna perigoso falar das duas como se fossem pontos próximos de uma mesma jornada.
Também me incomoda o privilégio implícito em boa parte desse discurso. É mais fácil transformar a sobriedade em projeto de autoconhecimento quando se dispõe de tempo, dinheiro, apoio emocional e acesso a terapias.
Para muitas pessoas, a dependência vem acompanhada de desemprego, violência, adoecimento, solidão e falta de assistência. Nesses casos, parar de beber não cabe em uma fotografia luminosa acompanhada por uma frase inspiradora.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.