A sombra de Pau D’Arco e a luta contra impunidade
A história dos Direitos Humanos no Pará carrega marcas indeléveis de resistência, luto e busca inquebrantável por justiça.
O Massacre de Pau D’Arco, ocorrido em maio de 2017 na Fazenda Santa Lúcia, não representa apenas a trágica execução de dez trabalhadores rurais no sul do estado — ele atravessou de forma irreversível a trajetória da minha própria família. Quando as narrativas oficiais tentavam impor a versão conveniente de um “confronto armado” entre policiais e posseiros, foi Paulo Fonteles Filho, no âmbito da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Pará (Alepa), quem levantou a voz da verdade.
Após diligências minuciosas no local da tragédia, examinando laudos periciais e ouvindo testemunhas, Paulo identificou que não havia tido troca de tiros, mas sim execuções sumárias à queima-roupa. Movido pelo compromisso com a justiça, Paulo compartilhou as evidências e os áudios denunciando a farsa do suposto confronto.
O vazamento e a rápida disseminação desse material colocaram sua vida em risco iminente, obrigando-o a um “exílio” preventivo fora de Belém por recomendação das próprias autoridades de segurança.
Foi sob a carga desse desgaste físico e psicológico que ele adquiriu pneumonia e veio a falecer precocemente em outubro de 2017.
A luta pela verdade em Pau D’Arco cobrou o preço mais alto.
Tensão política, extremismo e obstrução da Justiça Enquanto defensores da vida e dos Direitos Humanos tombavam, o cenário investigativo era conturbado por figuras alinhadas ao extremismo de direita.
Desde o início das apurações, o deputado Éder Mauro — expoente do bolsonarismo no estado e histórico opositor das pautas sociais e dos movimentos populares associados à esquerda — atuou ostensivamente para tumultuar os trabalhos e desrespeitar autoridades. Essa disposição política para tensionar, polarizar e deslegitimar as investigações contribuiu diretamente para que a teia de impunidade se consolidasse, mantendo até hoje a dor do massacre sem a devida responsabilização dos seus executores e mandantes.
A postura de transformar a violência do campo em palanque fúnebre para acirrar a militância exemplifica tudo o que a política paraense precisa superar.
Chamado global na ONU e respeito às instituições O impacto dessa leniência com a violência e com a extrema direita reverbera muito além das nossas fronteiras.
Discursando na abertura da Assembleia Geral da ONU, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfatizou a encruzilhada global entre “democracia ou extremismo, soberania ou subordinação”, alertando que a agressão às instituições e a cumplicidade com a barbárie contam com o auxílio direto de uma extrema direita “subserviente e saudosa de antigas hegemonias”.
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