O último da família
Existe um dia em que a pessoa percebe que já não resta quase ninguém capaz de completar uma frase muito simples: “Lembra daquele dia?”.
No início de 2026, a revista Social Science & Medicine publicou um estudo sobre essa experiência ainda pouco discutida: tornar-se o último sobrevivente da própria família de origem.
Susan L.
Brown, I-Fen Lin, Francesca Marino e Kagan Mellencamp analisaram 191.146 observações do Health and Retirement Study , nos Estados Unidos.
Pais e irmãos haviam morrido.
Ficava alguém carregando sozinho lembranças que, durante décadas, pertenceram a várias pessoas.
A pesquisa chama essa condição de sole family survivorship ( sobrevivência como único remanescente da família de origem ).
O conceito descreve quem já perdeu pai, mãe e todos os irmãos — ainda que tenha companheiro, filhos, netos e outros parentes.
Trata-se, portanto, do desaparecimento completo do núcleo familiar no qual aquela pessoa nasceu e cresceu.
Em estudo anterior, Brown e seus colegas haviam encontrado o fenômeno em 12,96% dos americanos com 55 anos ou mais.
Depois dos 75, a proporção ultrapassava um em cada quatro.
No trabalho publicado neste ano, sobreviver a pais e irmãos apareceu associado a mais sintomas depressivos e maiores dificuldades nas atividades cotidianas, entre homens e mulheres.
Os números brasileiros tornam a pergunta inevitável.
Segundo o IBGE, a população com 60 anos ou mais passou de 11,3% do país, em 2012, para 16,6% em 2025.
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