Doze dias de juros
Por Ricardo Lodi Ribeiro Professor Titular de Direito Financeiro da UERJ, ex-Reitor da UERJ e autor do livro “Orçamento para os Ricos”.
O país passa o ano discutindo a meta fiscal.
Ministérios têm dotações bloqueadas, obras são paralisadas, concursos adiados e o custeio de hospitais e universidades comprimido.
Governos já caíram em nome da responsabilidade fiscal.
Tudo isso parte de uma premissa apresentada como evidente e, por isso mesmo, quase nunca submetida a discussão: é preciso equilibrar as contas públicas.
Admitamos, para fins de argumentação, essa premissa em toda a sua extensão.
Suponhamos que o déficit público seja, por si só, um mal e que o crescimento da dívida represente uma ameaça às futuras gerações.
Ainda assim, permanece uma pergunta incômoda: a meta de resultado primário, em torno da qual se organiza boa parte da política fiscal brasileira, serve efetivamente para produzir esse equilíbrio? A resposta é não.
E basta um número para perceber a dimensão do problema.
A meta de superávit primário fixada para 2026 é de R$ 34 bilhões.
A conta de juros da dívida pública, no patamar do ano passado, consome pouco menos de R$ 3 bilhões por dia.
A meta inteira, portanto, equivale a doze dias de juros .
Dito de outra forma, fica ainda mais eloquente.
No ano passado, o déficit nominal — aquele que inclui os juros e revela o resultado efetivo das contas públicas — alcançou R$ 1,06 trilhão.
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