Neymar, o generoso
Depois da vitória de virada sobre o Macará, na Vila Belmiro, Neymar encarnou o sincerão e disparou algumas pérolas para a imprensa. Protagonista da partida contra a equipe equatoriana pela Sul-Americana, ele resolveu jogar limpo com a torcida.
"Nós entendemos a situação e o sofrimento do torcedor. Mas se a gente ficar remoendo o passado, o que será do futuro? O que será do agora? Estamos vivos em várias competições, temos que desfrutar desse momento. Não é ideal que, toda vez que eu ou um companheiro erramos, já venha a cobrança. Incentiva, p***! Para de vaiar, mano. Bate palma, vamos! Eu respeito vaiar no fim do jogo, dou 100% de razão. Mas durante a partida, não. Vamos nos ajudar. Aqui (na Vila) sempre foi alçapão, pressão em cima dos adversários. Cresci ouvindo os rivais falarem que era f*** jogar aqui. Hoje em dia, não sentimos mais aquele ambiente. Sinto saudades disso. O torcedor nos cobra em campo, mas agora estou cobrando eles também."
Não deixa de ser curioso que o atleta que provocou, debochou e xingou torcedores do próprio clube se sinta na posição de cobrá-los. Tudo, claro, em nome do espírito coletivo. Espírito coletivo que o vimos demonstrar na Kings League e em torneios de pôquer.
"Não vamos ganhar os jogos de 3 ou 4 a 0. Nosso time é isso aí, infelizmente. Tudo que aconteceu com o Santos nos últimos anos, o Santos virou isso. É sofrido, na raça e na vontade, mas é Santos. Se a gente se juntar e incentivar, juntamente com a torcida até o final, tenho certeza que a gente vai conseguir."
Poxa, bonito isso. O Príncipe que entende o sentimento dos camponeses.
Pouco importa que ele faça parte de tudo que aconteceu com o Santos nos últimos anos. Seu pai negociou um contrato que tem o CT Meninos da Vila como garantia — a dívida atual gira em torno de 79 milhões. Só em salário, com carteira assinada, Ney recebe mais de 4 milhões de reais. Gabigol embolsa mais de 2 milhões, com auxílio do Cruzeiro. Rony e Rollheiser também têm vencimentos robustos. O balanço financeiro do Peixe de 2025 mostra um gasto com salários, direitos de imagens e impostos de R$ 20,5 milhões, ou uma média de R$ 620 mil por jogador.
Seria justo questionar como o clube de Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, um clube que investe tanto, inclusive em um craque do nível de Neymar, pode normalizar "virar isso aí"? Talvez.
Ou talvez seja uma generosidade imensa de um cara que acabou de comprar um iate de R$ 120 milhões fazer o esforço de estar em campo contra o Macará. Talvez a torcida deva mesmo ser grata, enquanto o clube ainda é dela.
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