‘Professor virou robô’: pesquisa revela medo, autocensura e adoecimento em meio à ofensiva da extrema direita nas escolas
Durante anos, a professora de História Cibele Lima levou para a sala de aula debates sobre violência policial, racismo, homofobia e feminismo. Há 15 anos no ensino municipal paulistano, ela chegou a organizar grupos de discussão sobre feminismo no contraturno. Aos poucos, porém, começou a medir as palavras, reduzir as discussões e abandonar algumas atividades.
A mudança se aprofundou depois que um amigo, também professor de História, foi exposto nas redes sociais por causa de uma prova que havia aplicado. “Aquilo para mim foi muito impactante. Eu fiquei com muito medo de ser a próxima”, conta. “Eu parei de fazer o grupo feminista nos meus projetos de contraturno porque fiquei com receio.”
Hoje, a autocensura aparece até na maneira como Cibele responde a perguntas dos estudantes. Se uma criança pergunta, por exemplo, o que significa ser uma pessoa trans, ela diz que prefere chamar para uma conversa individual quem tiver interesse, em vez de transformar a dúvida em uma discussão com toda a turma. O receio é que o episódio chegue às famílias como uma acusação de que estaria “ensinando as crianças a serem trans”.
O relato de Cibele se enquadra em um cenário identificado pela nota técnica “Politização no cotidiano das escolas: um olhar para a prática docente”, elaborada por pesquisadores da FGV EAESP em parceria com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) .
Entre os participantes, 75% disseram ter medo de sofrer consequências profissionais caso suas decisões contrariem interesses políticos. Outros 61% afirmaram que a pressão política limita a autonomia para trabalhar como consideram adequado, enquanto 71,7% sentem que seu trabalho está mais exposto a críticas políticas do que no passado. Para 66,8%, até decisões rotineiras podem ser interpretadas como posicionamentos políticos.
A pesquisa recebeu 2.235 respostas válidas de profissionais da educação de todas as unidades da Federação, coletadas entre 23 de junho e 20 de agosto deste ano. A amostra é voluntária e não probabilística e, por isso, os próprios pesquisadores alertam que os resultados não podem ser generalizados para o conjunto dos docentes da rede pública brasileira.
Nos depoimentos abertos desta pesquisa, professores também descrevem exaustão, medo e adoecimento . “Estamos adoecendo, cansados, desvalorizados, com medo de agir, falar, contrariar, com medo de represálias”, escreveu um dos participantes. “Não temos mais autonomia. Somos robôs em frente a uma tela. Professor virou robô”, definiu um educador.
Coordenadora da equipe responsável pelo estudo, a professora e pesquisadora Gabriela Lotta afirma que o mais impactante foi perceber que a disputa política deixou de atingir apenas temas tradicionalmente polarizados e passou a interferir em práticas básicas do trabalho docente. “Tem afetado práticas docentes muito básicas.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.brasildefato.com.br — o conteúdo pertence a Brasil de Fato.