Só um caminhão
Não sei por onde anda Toinho e faz tempo que nos vimos pela última vez.
Numa das raras ocasiões em que conversamos, ele me revelou, com a maior honestidade, um traço de caráter que as pessoas costumam esconder: sua incompetência em guardar segredos.
“Não me conte nada, eu passo adiante” – avisa.
Se o indivíduo insiste, paciência: logo a confidência se tornará pública e não terá sido por falta de alerta.Minha mãe, ao contrário, era um túmulo selado a sete chaves.
Embora eu tenha herdado essa característica, às vezes divulgo intimidades alheias através de meus textos, só que ninguém vai saber de quem se trata; tenho o cuidado de alterar tudo o que possa levar a uma identificação.
Tomo ciência de babados peludíssimos por meio de amigos cujas línguas coçam e sabem que podem confiar em mim.O seguinte relato partiu de meu pai, 1927-2021.
Creio ser algo que o incomodava e um dia resolveu se livrar um pouco do peso.
Fiquei muito comovida e voltamos ao assunto em várias oportunidades.
Se refere ao nosso vizinho de porta quando eu tinha menos de oito anos.
Não me recordo dele nem de sua família, apesar de me lembrar vividamente de outros habitantes do prédio, como o cara que fumava cachimbo e mancava de uma perna, o morador do subsolo amante de plantas e a moça de quem ganhei a querida vira-lata Lady, companheira indestrutível dos meus seis aos 23 anos.
Sobreviveu a inúmeros e diversos infortúnios, morrendo aos 17, atropelada de novo, dessa vez quando dormia embaixo de um carro.
Pois então: o vizinho era um cidadão reservado, com esposa e duas filhas, tão discreto que dele não guardo memória.
No ambiente de trabalho, porém, se tornava bicha louquíssima, desmunhecando sem vergonha e paquerando abertamente todos os homens que achava atraentes.
Corajoso! Era a década de 60.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em atarde.com.br — o conteúdo pertence a A Tarde.