Quando foi que aprendemos a achar isso normal?
Imagine que você tivesse passado os últimos trinta anos fora do Brasil e voltasse hoje. Encontraria um país ainda no topo do ranking mundial de juros reais. Recorde recente de empresas em recuperação judicial. Recorde de feminicídios em 2025. PCC e Comando Vermelho com presença registrada em praticamente todo o país. Descobriria que milhões de aposentados e pensionistas contestaram descontos em seus benefícios e que uma investigação sobre um esquema bilionário no INSS alcançou o alto escalão da instituição e levou dezenas de pessoas a serem indiciadas pela Polícia Federal. Descobriria bilhões de reais em emendas parlamentares ainda cercadas por discussões sobre transparência e rastreabilidade.
E talvez custasse a acreditar que o escritório de advocacia da esposa de um ministro do Supremo Tribunal Federal, do qual também fazem parte dois de seus filhos, manteve com um banco posteriormente liquidado pelo Banco Central um contrato que, segundo revelou a imprensa, previa honorários de cerca de R$ 130 milhões.
Segundo relatório da Polícia Federal, mensagens recuperadas no celular de Daniel Vorcaro indicam que ele procurava Alexandre de Moraes para tratar das investigações e, dois dias antes de ser preso, perguntou se deveria deixar o Brasil.
Quem voltasse provavelmente perguntaria: O que aconteceu com o Brasil? Nós, que estivemos aqui todos os dias, talvez precisemos responder a outra pergunta: Quando foi que começamos a achar tudo isso normal?
Nesse período, vimos escândalos envolvendo governos, partidos, algumas das maiores empreiteiras do país, um dos maiores grupos de proteína animal do mundo e, agora, um banco. Houve confissões, acordos de colaboração, condenações e multas bilionárias. Depois, tribunais reconheceram ilegalidades e excessos em parte daqueles processos, e condenações foram anuladas.
Passamos anos discutindo quem era herói e quem era bandido. Mas deixamos de fazer a pergunta mais importante: O que aprendemos com tudo isso? Talvez tenhamos aprendido a achar normal. E aqui chego ao terreno que conheço melhor. Passei boa parte da minha vida liderando empresas e convivendo com conselhos de administração. Aprendi que, diante de uma decisão difícil, existe uma pergunta indispensável: É legal? Está dentro da lei? Mas essa nunca deveria ser a última pergunta de um líder. É ético? É moralmente aceitável? É adequado para quem ocupa aquela posição?
Em um conselho sério, quando existe conflito de interesses, não basta perguntar se a lei permite. Quem tem interesse direto no tema sai da sala, e quem fica decide às claras. Imagine que se conclua que não houve nenhuma ilegalidade naquele contrato. Ótimo. A questão jurídica estará respondida. Mas a questão ética estará? Legalidade é o chão, não o teto .
Reduzimos nossa régua moral àquilo que conseguimos defender como legal. O inquérito das fake news é um bom teste. Aberto em 2019 por ato da presidência do Supremo para investigar ameaças e ataques contra a Corte, foi considerado constitucional pelo próprio STF em 2020. O então ministro Marco Aurélio Mello, único voto contrário, chamou-o de "inquérito do fim do mundo". A questão jurídica foi respondida.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em economia.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Economia.