Cientistas usam isótopos da água para mapear alterações nas chuvas da Amazônia
Pesquisa da Unesp indica que monitoramento diário da precipitação permite rastrear as origens da umidade e pode servir de alerta para estiagens
Pesquisa da Unesp indica que monitoramento diário da precipitação permite rastrear as origens da umidade e pode servir de alerta para estiagens
Igor Zolnerkevic | Agência FAPESP – As secas históricas de 2023 e 2024 na Amazônia não apenas reduziram o volume dos rios, mas alteraram a própria composição da chuva na região. É o que revela um monitoramento diário feito em Manaus (AM), que utilizou isótopos – uma espécie de “impressão digital” da água – para demonstrar como o El Niño e o aquecimento do Atlântico Norte afetaram a origem da umidade e a dinâmica das precipitações.
O estudo liderado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) – um dos primeiros a retomar o uso de técnicas isotópicas em estudos hidroclimáticos na Amazônia em mais de 30 anos – sugere que os isótopos podem sinalizar com antecedência a chegada de períodos de seca prolongados.
Isótopos são versões mais leves ou pesadas dos átomos de um mesmo elemento químico. As moléculas de água (H 2 O) são formadas de átomos dos elementos hidrogênio e oxigênio. A maioria dos átomos de hidrogênio possui um núcleo atômico feito de apenas um próton. Os núcleos de uma pequena fração deles, entretanto, são duas vezes mais pesados, compostos de um próton e um nêutron. Da mesma maneira, a maioria dos núcleos de oxigênio é formada de oito prótons e oito nêutrons, embora alguns poucos tenham nove ou dez nêutrons. Algumas moléculas de água são, portanto, mais leves, evaporando com um pouco mais de facilidade, enquanto outras, mais pesadas, condensam primeiro.
“As proporções entre os isótopos leves e pesados são alteradas pela evaporação e condensação da água ao longo do ciclo hidrológico”, explica a geógrafa Rafaela Rodrigues Gomes , doutoranda do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE) da Unesp em Rio Claro. Ela é a primeira autora do trabalho publicado em junho na revista Hydrological Processes , baseado em sua dissertação de mestrado, com bolsa da FAPESP.
Seu orientador no mestrado e no doutorado é o coordenador do Laboratório de Recursos Hídricos e Isótopos Ambientais (LARHIA) da Unesp, o geólogo Didier Gastmans . “Cada condição de temperatura, umidade e outras variáveis meteorológicas produz diferenças na proporção dos isótopos, que podem ser utilizadas como uma impressão digital da água”, explica Gastmans.
Os estudos sobre a variação isotópica da chuva na Amazônia Central começaram nos anos 1960, realizados principalmente por pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP), em parceria com a Agência Internacional de Energia Atômica (Iaea, na sigla em inglês). Amostras mensais de chuva foram coletadas em Manaus, ainda que com interrupções em alguns anos, entre 1965 e 1990.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em agencia.fapesp.br — o conteúdo pertence a Agência FAPESP.