Sempre aprendi que os santos não dormem; hoje penso como deve ser cansativo
Jornalista e doutora em estudos da literatura, é autora de 'A Cabeça do Santo' e 'Oração para Desaparecer'
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Ser apenas uma minúscula pessoa em um mundo imenso. Ter apenas uma minúscula fatia do tempo do universo para viver. É nisso que tenho pensado todos os dias, enquanto aparento levar a rotina usual de uma mãe contemporânea.
Trabalho e executo tarefas como se não fosse absurdo conviver com tantas perguntas na cabeça, uma nuvem de dúvidas, não exatamente ruins, mas inquietantes o suficiente para tirar o sono às três da manhã em ponto, todos os dias.
O algoritmo tem lido pensamentos, escutado conversas sobre isso, pois todo dia eu recebo explicações aleatórias para o fato de que acordo às três da manhã.
Pelo apanhado de teorias, pode ser uma questão hormonal. Ter a ver com algum ciclo de hormônios desregulados, que só se organizam tomando umas vitaminas. Ou parando de tomar café, ou fazendo ioga.
Vi uma ideia de que pular por 15 minutos, de manhã cedo, vai regulando os parafusos e organizando o sono em um bloco compacto. É uma força que não tenho, infelizmente. Acordar e pular me parece impossível no momento, justamente porque não dormi direito.
Outro ponto de vista é que se trata de uma tal "comunicação especial", uma espécie de ligação telefônica que precisamos atender exatamente nesse horário. Dizem que é um ponto de contato com outras esferas da existência. Pois, se for assim mesmo, estou perdendo todas.
Não vi nenhum ganho em acordar às três da manhã, nenhuma revelação. Ver espírito que só chega a essa hora também é algo que ainda não ocorreu por aqui, felizmente.
Pela quantidade de textos e tentativas de cura para o fenômeno da madrugada, muita gente deve estar na mesma situação. De minha parte, eu só queria dormir, mesmo. Dormir e descansar o suficiente para aguentar mais um dia pensando sem parar. E fazendo algo de útil com os pensamentos.
Morro de rir com os relatos de uso de medicação pelos insones. Compras de viagens, por exemplo, acho incrível. Isso, sim, pode ser a manifestação de algum tipo de mensagem: a pessoa toma remédio para dormir, entra em um estágio de sonambulismo, compra uma viagem aleatória e, ao chegar lá, redescobre a vida, como nos filmes.
Em um desdobramento mais radical, eu queria dormir mais para sonhar mais. É o contrário: talvez só nesse mergulho por dentro as respostas apareçam de verdade.
Eu poderia me oferecer de cobaia para o Instituto do Cérebro , do Sidarta Ribeiro . Contribuir para a construção da máquina de leitura dos sonhos, desenhada pelo escritor angolano José Eduardo Agualusa no livro "A Sociedade dos Sonhadores Involuntários".
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