Renan Santos “candidato”: Quando a falta de noção do ridículo rende votos
Antes de falar de Renan Santos é preciso contextualizar.
Há quase uma década aportou no Brasil uma tendência visceralmente destrutiva na política, uma onda estridente que prometia fazer política negando a própria política.
Logo nos seus primeiros passos, essa corrente folclórica pariu um sujeito de cariz abobalhado que berrava diante das câmeras como um personagem de A Praça É Nossa , mesclando clichês ridículos de botequim com fraseologias abertamente racistas e homofóbicas.
Saindo das escatologias do CQC e da vulgaridade do palco do programa de Luciana Gimenez, o inexpressível e perturbado Jair Bolsonaro ganhava projeção nacional.
Em questão de um ano, resgatado do fundo da lata do lixo da Câmara, viu-se catapultado direto ao Palácio do Planalto, inaugurando e alimentando um ciclo ininterrupto de cretinices e violência bufa que virou coqueluche entre um eleitorado embrutecido.
Mesmo após quatro anos de um “governo” caótico, marcado pelo colapso sanitário, corrupção rasteira e oficializada e uma agressividade institucional que desembocou numa gestão pífia e vergonhosa, levando-o à incontornável derrota na reeleição, o estilo grotesco emplacou em definitivo no debate público.
E o país, tragado por esse buraco negro cívico, nunca mais voltou a ser o mesmo.
Agora, multiplicando-se exatamente como novas cepas mutantes de um vírus letal, a estupidez transbordante de orgulho do bolsonarismo se reproduziu e entregou ao cenário público variantes ainda mais bizarras e caricatas.
O grande destaque dessa estirpe degradante é ele, o paulista de 42 anos autoerigido liderança e pretenso “cérebro” do Movimento Brasil Livre (MBL).
As aspas na palavra “cérebro”, por óbvio, dispensam maiores explicações a qualquer leitor dotado de discernimento básico.
Desocupado profissional, detentor de um passado de playboy bon vivant e soterrado sob escândalos sequenciais de misoginia, a maioria dos brasileiros só tinha ouvido falar remotamente de Renan Santos por conta de um episódio sórdido: há alguns anos, seu grande amigo, sócio político e então deputado estadual paulista Arthur do Val, vulgo “MamãeFalei”, teve o mandato cassado após a revelação de áudios vadiando na Ucrânia recém-destroçada pela guerra.
Na ocasião, o parlamentar confessou sem pejo que fora ao cenário de flagelo humanitário para “pegar mulher”, categorizando com frieza canalha que lá “elas são fáceis porque são pobres”.
Ao detalhar suas táticas abjetas para se aproveitar de mulheres apavoradas e vulneráveis em pleno teatro de horror, “MamãeFalei” deixou escapar no áudio que “o Renan até organiza todo ano um tour de blonde ”, em referência explícita à caçada sistemática a mulheres loiras do Leste Europeu.
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