O mito do renascimento cristão
Professor de antropologia da UFRJ, é membro da Academia Brasileira de Ciências
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Em abril de 2025, uma pesquisa realizada no Reino Unido pareceu contrariar a tendência religiosa das últimas décadas. Segundo o relatório, o cristianismo estaria crescendo significativamente na Inglaterra e no País de Gales .
Os números impressionaram. Segundo o relatório feito pela Bible Society, a frequência mensal às igrejas teria crescido de 8% para 12% entre 2018 e 2024, passando de 3,7 milhões para 5,8 milhões de pessoas. Na geração Z , entre os jovens de 18 a 24 anos, o salto seria de 4% para 16%; entre os homens dessa faixa, chegaria a 21%.
O relatório também ofereceu uma gramática estatística às reivindicações religiosas e conservadoras pela recuperação da centralidade cultural do cristianismo na sociedade britânica.
Nove meses depois do imenso barulho internacional quanto ao possível renascimento cristão inglês, está claro que a pesquisa estava completamente equivocada. Em janeiro de 2026, o Pew Research Center comparou seus resultados com as grandes pesquisas probabilísticas britânicas e mostrou que elas continuavam registrando queda tanto na identificação cristã quanto na frequência às igrejas.
A discrepância aumentou o escrutínio sobre o método do relatório. Pouco depois, veio a público que os resultados se baseavam em um painel online de adesão voluntária e que os mecanismos de controle contra respostas fraudulentas não haviam sido aplicados corretamente. No primeiro semestre deste ano, a Bible Society retirou o relatório do ar e reconheceu que seus dados já não podiam sustentar a tese de um renascimento cristão.
O que ocorreu na Inglaterra no ano passado teve roteiro repetido neste ano. No primeiro semestre, jornais de diversos países voltaram a anunciar um suposto retorno do interesse dos jovens pelo cristianismo nos Estados Unidos, especialmente pelo catolicismo. O impulso inicial veio de uma reportagem do New York Times sobre o aumento das conversões em duas dezenas de dioceses americanas, rapidamente reproduzida como sinal de uma retomada religiosa mais ampla.
Mais uma vez, a sedução da tese contraintuitiva fez mais sucesso do que as ponderações estatísticas que vieram na sequência. No balanço acumulado das mudanças de religião, o catolicismo americano perde 8,4 fiéis para cada um que recebe.
O viés da percepção de aumento pode ser um efeito da espetacularização da religião nas redes sociais, alimentada por fotos e relatos a cada novo convertido, enquanto muito menos visibilidade é dada ao abandono da crença daqueles que deixam de se identificar com ela.
Os dados estatísticos mais robustos não mostram tendência de ampliação no número de cristãos nem nos Estados Unidos, tampouco no Reino Unido. A redução da participação cristã ocorre inclusive no Brasil.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.