O pior lugar é julgar-se em paz
A última década não é uma sucessão de guerras avulsas, da Ucrânia ao Golfo, de Israel ao Irão, até à Venezuela.
São capítulos de uma só transformação.
Não é desordem, é reorganização: o mundo que se ordenava por território e alianças dá lugar a outro, ordenado por quem controla rotas e nós, a energia, os dados, a finança, o mar.
Foi o que defendi na quarta-feira, no Porto, no painel A Arte da Guerra, o mundo em 2036, nos dez anos deste jornal.
Convém desfazer um equívoco: a demolição é, antes de tudo, americana.
O direito internacional tinha por principal garante os Estados Unidos, e quando é o árbitro que o põe em causa, da Gronelândia às Caraíbas, com as forças armadas ao serviço de interesses próprios, o sistema não é atacado de fora, é desmontado por dentro.
Trump não é a anomalia, é o canalizador.
E a ordem que se desmonta nunca foi neutra.
O direito internacional que herdámos é o dos vencedores de 1945, actualizado pela descolonização, pelos produtores de petróleo, pelas potências industriais do Sul.
Sobrou um sistema em que quem decide no Conselho de Segurança já não coincide com quem produz, e em que a Assembleia Geral, com a regra de um Estado, um voto, e o voto em blocos, fabrica maiorias automáticas.
Defender esta ordem não é defender justiça, é defender um arranjo, e o incómodo é que o que vem a seguir pode ser pior.
Se a demolição é americana, a construção não deverá ser obra de um só.
A China faz há muito o mesmo por outra via, comprando participações em portos e pondo a mão nos pontos de passagem: onde a América é ostensiva, ela é paciente, com o mesmo objectivo.
A Rússia não constrói nada disto, é o perturbador.
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