A Encíclica 'Magnifica Humanitas' e a descolonização da identidade ocidental
" Para o povo colonizado, o valor mais essencial, por ser o mais concreto, é primordialmente a terra: a terra que deve assegurar o pão e, bem entendido, a dignidade da 'pessoa humana'.
Essa pessoa humana ideal, nunca ouviu falar dela.
O que o colonizado viu na sua terra é que podia ser preso, espancado ou morrer de fome impunemente; e nunca nenhum professor de moral, nenhum padre, recebeu tais golpes em seu lugar ou repartiu com ele o seu pão.
" Franz Fanon, Condenados da Terra , 1961.
Os temas tratados pelo Papa Leão XIV, na Encíclica Magnifica Humanitas – o papel de tecnologia numa sociedade que gostaríamos de ter, e a colonização – são dois dos mais polémicos, difíceis, e emocionais da atualidade.
E numa altura em que a sociedade parece avançar cegamente para um futuro distópico ultratecnológico, é preciso parar e perguntar: para onde vamos? Queremos ir? Porque o futuro não é inevitável: é construído, agora, no presente, e depende do balanço que fazemos do passado.
Ora, a maioria dos problemas atuais das sociedades ocidentais – extrema acumulação de capital com erosão democrática a favor de estruturas oligárquicas; funcionalização extrema da natureza e destruição sistemática do meio ambiente; auto e hétero-desumanização e sexualização da criança; redução progressiva da pessoa a consumidor ou cliente; funcionalização máxima da existência a critérios acríticos de produtividade e eficiência; confusão entre riqueza ou sucesso e carácter; construção de um sistema de valores piramidal em que o capital, no topo, ocupa cada vez mais espaço; imposição de hierarquias rígidas em função da classe, género, racialização, nacionalidade; glorificação do egoísmo extremo e demonização da empatia e generosidade; etc. – são, pelo menos em parte, resultado do nosso passado colonial.
Somos corpo e alma (consciência, para os ateus), numa interdependência complexa e ainda não totalmente conhecida.
Se o corpo explora, oprime, violenta, mata – e esta é a história do colonialismo ocidental – a alma sofre também.
A consciência encolhe-se, suprime-se.
E se uma identidade coletiva é construída em torno destas atividades, mais tarde ou mais cedo, a violência é internalizada.
Grande parte da identidade coletiva europeia foi construída sobre pilares de barro: superioridade racial e cultural; incapacidade intrínseca de coexistência paritária; necessidade constante de destruição, violência, opressão e domínio, nos territórios colonizados, para alimentar a riqueza e as ilusões de democracia e valores humanos no continente.
Querem recibos? Temos atualmente em curso várias guerras de recursos, da Ucrânia ao Irão, e temos também participação europeia em Exércitos de mercenários ou grupos terroristas em locais como o Congo e o Sudão.
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