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Manual de Resistência

Observador ·
Manual de Resistência

O principal motivo pelo qual ninguém se surpreendeu é porque ninguém acredita que o que ele diga seja fundamentalmente verdade. Pode sê-lo, quando muito, de forma contingente, porque Sánchez não acredita em nada que não seja nele próprio. O jovem que utilizou os contactos do pai para medrar no partido, sem nunca ter sido um militante de base, cultivando uma imagem de socialista moderado, tecnocrata pró-mercado à lá Tony Blair, sem nunca ter tido currículo que o justificasse, quando o vento mudou e se viu obrigado a isso para chegar ao poder – primeiro no próprio partido e depois no governo – converteu-se no maior defensor das causas da esquerda radical sem nunca ter lido Marx, colado um cartaz, lançado um cocktail Molotov ou organizado um piquete de greve.

Ao contrário de muita gente que opina que Sánchez andava há muito tempo a pensar em eleições, estou bastante seguro que até à Sexta-feira passada quando o projecto lei para a habitação foi chumbado, ou quando muito na noite anterior quando ficou claro que o Junts Per Catalunya não ia votar a favor, o chefe do Governo espanhol estava convencido que ia esquivar mais uma bala e continuar a governar. Quanto mais não seja porque teve o desplante de colocar uma alínea que permitia à Catalunha não aplicar a lei que estava a ser aprovada, para que o Junts pudesse aprovar uma lei inconsequente para os seus votantes. As palavras da ministra da tutela, durante a discussão no Congreso de los Diputados foram claras: “en el texto que está publicado en el BOE se recoge una excepción, y hoy tienen que saber los catalanes y las catalanas, que la norma que está en vigor [aprovada essa mesma manhã pelo Governo como Decreto-Lei, finalmente chumbada no Congresso], la norma que impulsa este gobierno y la norma que podrían estar aprobando los diputados de Junts, no afecta a Cataluña” . Este é Pedro Sánchez Pérez-Castejón: a tal lei para a qual o governo esteve a trabalhar “em contra-relógio” segundo o próprio, depois de 8 anos em que aparentemente não teve tempo de o fazer, aquela que era a solução para o grave problema da habitação em geral e dos despejos em particular, não seria aplicável na região que lidera a estatística de número de despejos no país. Tudo para continuar a governar.

Durante o mês de Agosto o governo, por acção ou omissão, intencionalmente ou por inépcia, com ou sem culpa, geriu de forma desastrosa a crise provocada pela invasão de Ceuta por umas 80 mil pessoas que atravessaram a fronteira a nado ou a pé desde Marrocos. Durante um mês a grande maioria dos habitantes de Ceuta teve de se recluir nas suas casas com medo de sair à rua onde uma horda de estrangeiros reinou de forma practicamente impune. A impopularidade do governo atingiu novos máximos, e Pedro Sánchez, de mãos e pés atados pelos seus sócios de extrema-esquerda na questão de Ceuta, começou a preparar a campanha para as eleições.

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