A Europa dos valores precisa de voltar às virtudes
Os valores dizem-nos o que estimamos; as virtudes formam-nos para agir em conformidade, sobretudo quando isso custa. A construção europeia nasceu de homens cujo carácter transformou princípios em obras.
Há poucas palavras tão repetidas e tão pouco examinadas como «valores». Fala-se de valores europeus, valores democráticos, valores empresariais e valores de uma marca. As organizações publicam-nos nas paredes; as instituições inscrevem-nos nos tratados; os dirigentes invocam-nos nos discursos. Mas, quando chega a crise, descobre-se a insuficiência da proclamação: uma lista de valores não toma decisões, não resiste ao medo, não domina interesses nem faz sacrifícios.
Os valores são necessários. Identificam bens que uma pessoa ou uma comunidade reconhece como dignos de estima: a liberdade, a dignidade, a justiça, a solidariedade. O problema começa quando os tratamos como se bastasse afirmá-los. Na linguagem contemporânea, um valor pode facilmente tornar-se uma preferência elevada à categoria de princípio, uma palavra que todos repetem, embora nem todos lhe atribuam o mesmo conteúdo.
A virtude é outra coisa. Na tradição clássica, a diferença parece pequena, mas é decisiva. O valor diz que a justiça é importante; a virtude torna alguém justo. O valor elogia a coragem; a virtude permite vencer o medo quando agir bem tem um preço. O valor declara a solidariedade; a virtude leva a servir uma pessoa concreta, mesmo sem aplauso ou vantagem.
Os valores podem ser proclamados. As virtudes têm de ser praticadas. Os valores figuram num código. As virtudes reconhecem-se numa vida. E, enquanto o valor tende a responder à pergunta «o que estimamos?», a virtude responde a uma pergunta mais exigente: «em que espécie de pessoa me estou a tornar?»
É aqui que a herança cristã se torna indispensável para compreender a Europa. O cristianismo não ofereceu ao continente apenas um catálogo de princípios. Ofereceu-lhe uma visão da pessoa: o homem não é chamado apenas a cumprir regras, mas a converter o coração, ordenar os desejos, servir o próximo e aprender a amar.
Foi desta gramática moral, e não de uma folha de cálculo institucional, que nasceu grande parte da construção europeia. Robert Schuman, Konrad Adenauer e Alcide De Gasperi não eram homens impecáveis, nem a integração europeia teve apenas motivações religiosas. Houve razões económicas, estratégicas e de segurança. Jean Monnet acrescentou um extraordinário génio prático. Mas seria historicamente míope ignorar que aqueles estadistas haviam sido formados por uma cultura cristã e personalista, tinham atravessado a experiência dos totalitarismos e entendiam a política como uma responsabilidade moral.
O seu feito não consistiu apenas em concordarem com a paz como valor. Quase todos diziam querer a paz. Consistiu em possuírem as virtudes necessárias para transformar antigos inimigos em parceiros. Foi preciso prudência para avançar por etapas concretas, em vez de impor uma construção abstrata. Justiça para reconhecer à Alemanha derrotada um lugar numa nova ordem comum. Fortaleza para contrariar o ressentimento e o medo. Temperança para limitar o uso do poder nacional.
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