António Vieira. Lições de poética
António Vieira (1941), autor de uma originalíssima obra poética e ensaística, e que teve, enquanto poeta, como chancela primordial, a &etc, publicou também poesia na Assírio & Alvim, mas sobretudo ensaio em casas editoriais de enorme relevo.
Na Hiena publicou, em 1994, Ensaio Sobre o Termo da História (reeditado em 2009 pela Fim-de-século); na editora de Vítor Silva Tavares publicou Improvisações Sobre a Ideia de Deus , que teve eco no Brasil ao ser publicado em 2017, em Belo Horizonte; e publicou ainda, na Mariposa Azual, O Perceber do Mundo.
O Ser e o Saber , em 2020, sem esquecer, na mesma editora, o livro Mito e Razão no Discurso de Protágoras , ou, na Companhia das Ilhas, O Elogio da Descrença (2021).
António Vieira, ou melhor, António Bracinha Vieira, o poeta, encontra-se agora disponível para a nossa leitura num livro intitulado Erato – Mythos & Logos (Mariposa Azual), interrompendo um silêncio de 25 anos, posto que sejam estes poemas o primeiro conjunto de inéditos que dá à estampa neste século.
Doutorado em Medicina, António Bracinha Vieira, professor universitário – dos mais raros –, é também dos mais raros poetas da contemporaneidade e este facto (ou estas duas dimensões que se completam e complementam), deve ser tido em conta quando lemos este singelo livro.
São 22 poemas organizados em duas secções, ou capítulos: “ Mythos ”, a primeira.
A segunda: “ Logos ”.
É relativamente clara a intenção do título, ou melhor, deste subtítulo, uma vez que o leitor poderá formar a palavra composta “mitologia” e perceber, a partir daí, uma das intenções do volume: são poemas em torno de figuras da mitologia.
Mas o título propriamente dito, Erato , é aí que está a chave da nossa interpretação: “Erato, filha da titânide Mnemósine e de Zeus, foi uma das Musas, a inspiradora da poesia lírica e amorosa.” Assim nos informa numa brevíssima nótula inicial.
Mas o autor diz mais.
Alguns destes poemas, guiados por ritmos de Corneille e de Racine (alexandrinos) e de Camões (decassílabos) e pelo espírito de François Malherbe, no seu recorte neoclássico, arcaizante e levemente paródico, reflectem a fruição do autor ao compô-los e o seu projecto lúdico de publicá-los.
Informação axial, posto que, seguindo Corneille e Racine, ambos, com Molière, os pais do alexandrino como medida matriz do classicismo francês; e ao eleger o decassílabo de Camões igualmente como respiração, o que Vieira nos dá é um conjunto de textos que, pese embora o desafio de resgatar ritmos que exigem uma cesura rigorosa, um culto do tetrâmetro, em que cada metade do verso pede um acento secundário, se lêem de forma fluida, sem dificuldades e artifícios.
É certo que Vieira cultiva também o hipérbato, subvertendo a disposição das palavras e o seu lugar na frase.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.