Lazer ou trabalho? Todas as marés são boas para Béhen
Quem precisa de sete saias de uma vez? Se forem Béhen, é provável que o número de braços no ar aumente. No primeiro piso do MUDE, num evento restrito, por convite, a comunidade de Joana Duarte sentou-se com o entusiasmo de quem espera uma onda gigante. A temperatura de outubro mal nos deu tempo de sacudir a areia do saco de praia, e de forma pouco ou nada subtil já se antecipa a próxima época estival. “Desta água não beberei” , apresentada esta quinta-feira, no segundo dia de ModaLisboa, cruza o imaginário popular da Nazaré com essa prática de ir a banhos, registo balnear desenvolvido em Portugal entre o final do século XIX e o início do século XX. Quase cem anos depois, o contraste entre as realidades sociais do núcleo piscatório e o apelo sazonal mantém-se como marcas da vila que inspira a coleção.
“Quando pensamos neste universo, e na minha pesquisa toda das técnicas tradicionais, acho que é impossível não passar pelas imagens da Nazaré, sejam as fotografias antigas, sejam as próprias cores dos aventais e das saias todas, as histórias dos pescadores, das mulheres a aguardar pelos pescadores ou arranjadas, à noite. Acaba por estar sempre presente.” explica a designer no rescaldo do desfile, pouco depois de o livestream – onde mal há tempo para seguir a transmissão e despistar eventuais percalços – se desligar. De resto, rapidamente tudo se enterra na areia, uma vez que a atenção já repousa sobre o ensaio seguinte.
As famosas sete saias não são levadas à letra, nem representadas em sete camadas como na estação anterior, antes reinventadas em sobreposições e assimetrias, com xailes e drapeados (neste caso um segundo take de um vestido preto que fez sucesso nas primeiras seasons) © Alexandre Azevedo
“Já estamos a preparar a próxima coleção. Então, se calhar quando olhamos [para esta coleção] sentimos que algumas ideias já podiam ter sido introduzidas nesta, aquela shape , ou aquele brinco. Na verdade, a nível de referências, já tem muita coisa da seguinte.” antecipa Joana.
Cada qual a seu tempo, trabalho e lazer, dia e noite, competem pela atenção neste leque de coordenados, espelho de uma transformação permanente, entre necessidade e privilégio, fórmula prática ou um pouco mais elaborada, consoante a maré que aí vem. As técnicas tradicionais, as referências do folclore, e ainda os materiais ligados ao quotidiano mais simples cruzam-se com códigos mais formais e estruturados . É esse, aliás, o ponto alto da coleção: o trabalho sobre as silhuetas mais associadas à alfaiataria e ambiente de escritório, para um rame rame sofisticado.
“É importante para nós definir estes códigos, o que é que significa, ou seja, o que é que visualmente torna uma peça boa através destes cortes, sem necessariamente irmos só pela parte do bordado. E acho que é essa a transição que também queremos fazer. Ok, o bordado já se relaciona muito com a marca, mas não é só isso. Há também uma silhueta que estamos a tentar cada vez mais estruturar, ganhar”, define a criadora.
Os tecidos mais clássicos são aplicados à camisaria , que se afasta das clássicas flanelas, e as formas adquirem depuração.
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