A Odisseia da liderança
A reputação não pesa apenas nos ombros de quem lidera Ironicamente (ou não), a palavra “narrativa” tem hoje um sério problema de reputação.
No debate público, virou quase um termo pejorativo, associado a discursos encomendados, à atuação de spin doctors em campanhas políticas ou a manobras de diversão através da comunicação para encobrir falhas.
Mas a verdadeira narrativa é o oposto da manipulação.
O cérebro humano está biologicamente programado para reter histórias e não dados soltos — como notou Tony Blair na sua autobiografia: sem uma narrativa, qualquer estratégia reduz-se a uma lista aleatória de acontecimentos.
A Odisseia não atravessou milénios por ser propaganda, mas por oferecer uma moldura conceptual contínua — um sistema que liga a emoção, o contexto e o propósito de uma viagem.
Enquanto os dados informam, a narrativa constrói uma visão de mundo partilhada.
É por isso que perdura.
Mas a Odisseia deixa-nos também uma lição sobre o próprio papel de quem comanda: nenhuma grande jornada avança sem uma figura que mostre qual é o caminho, mas também nenhuma instituição sobrevive se a história depender exclusivamente dessa figura.
Olhemos para as controvérsias recentes no desporto, seja em federações nacionais ou em organismos internacionais do futebol, em que a armadilha é quase sempre a mesma: a narrativa individual de quem está no topo expande-se a tal ponto que acaba por ocupar todo o espaço institucional.
Quando a voz do líder e a da organização se tornam indistinguíveis, qualquer ruído ou erro individual expõe diretamente a entidade, retirando-lhe margem de manobra e isenção para responder.
No tecido empresarial, o cenário replica-se diariamente.
É perfeitamente natural e desejável que quem lidera tenha visibilidade, ideias claras e uma voz marcante no mercado.
O risco surge quando a empresa não conta a sua própria história e fica apenas refém do carisma de quem ocupa a liderança.
Perante esta vulnerabilidade, a resposta passa por construir uma narrativa institucional sólida — um fio condutor que conecta todos os pontos e dá um verdadeiro significado ao propósito, à visão e aos valores da organização.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em jornaleconomico.sapo.pt — o conteúdo pertence a Jornal Económico.