Estado da União: A Europa não está a morrer, está demasiado competente a ganhar tempo
A Europa continua a funcionar. Os tratados estão em vigor, os tribunais decidem, a Comissão propõe e o Parlamento e o Conselho da União Europeia continuam a produzir acordos. O que se tornou mais difícil perceber é para onde vai. Vinte e sete governos olham para o mesmo continente e veem riscos, eleitores e calendários diferentes. A dificuldade aparece depois de cada crise. Surge um problema, os governos negoceiam, chega um acordo à última hora e a vida continua. Até à crise seguinte.
Ceuta tornou uma coisa difícil de ignorar: uma fronteira pode ser espanhola, mas o problema é europeu. Dezenas de milhares de pessoas atravessaram a fronteira num único dia, numa pressão que nenhum Estado-Membro deveria ter de absorver sozinho. Bruxelas pode endurecer as regras de asilo, reforçar a Frontex e acelerar os regressos, mas isso não substitui a solidariedade entre os 27. Uma decisão tomada num país pode alterar rapidamente a pressão sobre outro, porque os fluxos não respeitam fronteiras nacionais. Se a fronteira externa é comum, não faz sentido deixar sozinho perante a crise o país que a guarda.
A guerra na Ucrânia trouxe a mesma pergunta por outra via. A Europa enviou dinheiro, armas e sanções e reagiu com uma rapidez que teria sido difícil imaginar noutras crises, sobretudo perante a ambivalência do Presidente dos Estados Unidos . Mas a defesa continua repartida entre programas, indústrias e prioridades nacionais. A “muralha de drones” ainda diz mais sobre a ambição do nome do que sobre aquilo que a Europa consegue pôr no terreno. Quanto dinheiro pode gastar é uma pergunta. Quem decide onde o gastar é outra. E esta segunda costuma aparecer demasiado tarde.
Na política interna, a margem estreitou-se . A AfD já pesa nos cálculos eleitorais alemães, Marine Le Pen aproxima-se do Eliseu e Giorgia Meloni é apresentada como um modelo de “estabilidade”. O centro adaptou-se. Mudou, por vezes, o discurso. Noutras, mudou as políticas. Seria confortável contar esta história como uma luta entre uma Europa liberal e os seus adversários nacionalistas. A realidade é menos linear. Muitos eleitores que querem menos imigração, energia mais barata ou mais defesa continuam a querer mais cooperação europeia. Mas querem saber o que essa cooperação lhes dá para além de discursos.
Um estudo recente do European Council on Foreign Relations identificou uma contradição reveladora: 73% dos europeus têm uma visão clara do futuro da Europa, centrada na unidade e na integração política, na paz e na segurança ou na prosperidade, enquanto maiorias igualmente expressivas veem a Europa em deterioração e o seu futuro ameaçado. A questão é saber se os Estados-Membros conseguem dar à União os meios necessários.
A Islândia oferece um aviso sério. Os eleitores rejeitaram a retoma das negociações de adesão à União, apesar dos argumentos económicos e geopolíticos a favor de uma aproximação. Para muitos, a questão continuava a ser concreta: pesca, águas e meios de subsistência. Bruxelas podia negociar, mas a decisão final continuava a pertencer aos islandeses . É esse o princípio da subsidiariedade: saber o que deve ficar nas mãos dos Estados e o que só pode ser resolvido em conjunto.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.