Xeque David Munir: Islão não obriga mulheres a tapar rosto
O xeque David Munir, imã da principal mesquita portuguesa, concorda com a recém-promulgada “lei das burcas”, destacando que o Islão não considera pecado que uma mulher ande na rua com o rosto destapado e que, por razões de segurança, a proibição agora aprovada faz sentido — embora, no passado, o mesmo dirigente islâmico tivesse criticado o debate em torno da medida, considerando-o pouco relevante e islamofóbico.
Em declarações à TSF , o imã da Mesquita Central de Lisboa salientou que, “de acordo com o Islão, se uma mulher tiver o rosto destapado, não é crime, não está a transgredir a lei de Deus”.
“Portanto, de acordo com a lei que foi promulgada, concordamos que, no espaço público, homens e mulheres têm de ter o rosto destapado por razões de segurança”, assinalou o clérigo muçulmano. “Aquilo que se coloca é sensibilizar as mulheres muçulmanas de que, se andarem sem a burca, não estão a cometer nenhum pecado. Esta coisa de considerar uma mulher submissa, uma mulher inferior, só por vestir a burca, é mentira no nosso país.”
Munir disse, também, que o uso da burca é uma realidade absolutamente residual entre os muçulmanos em Portugal. “Se houver no nosso país inteiro 20 mulheres que usem burca, é milagre”, frisou, destacando que as mulheres muçulmanas que pretendam continuar a cobrir a cabeça em público têm como alternativa o hijab , véu islâmico que cobre o cabelo, mas não o rosto.
Seguro dá luz verde à lei das burcas e defende que mulheres não devem ter de esconder o rosto
A lei, inicialmente apresentada pelo Chega, ficou conhecida como “lei das burcas” porque a sua versão inicial se destinava especificamente a proibir o uso da burca no espaço público. Na sua versão final, proíbe, com poucas exceções, todas as formas de ocultação total do rosto em público. Na promulgação , esta semana, o Presidente da República assumiu a “grande sensibilidade social e cultural” da medida e frisou não só aspetos de segurança, como também de convivência social, destacando que “o rosto destapado constitui uma dimensão estruturante da confiança social, característica da sociedade portuguesa”.
Em outubro de 2025, por ocasião da aprovação da proposta inicial do Chega, o xeque David Munir veio insurgir-se contra aquilo que classificou como “uma forma velada de atacar os imigrantes” e um “discurso um bocado islamofóbico”. Na altura, Munir considerou que em Portugal seriam apenas “meia dúzia” as mulheres que usavam burca ou nicabe e que, por isso, a discussão política no sentido de proibir aquela veste religiosa era uma forma de os políticos “taparem os olhos aos portugueses”.
“Na prática, se formos ver, quantas muçulmanas foram apanhadas com o rosto tapado a cometerem algo que pusesse a segurança em causa? Zero”, disse Munir, lamentando que se dedicasse tempo a discutir a burca quando há “tantos problemas graves” no país, “com bebés a nascerem nas ambulâncias ou hospitais a serem fechados porque não há médicos”.
Também em outubro do ano passado, a Amnistia Internacional condenou o projeto legislativo, considerando que a proposta era “discriminatória” e violava “os direitos humanos das mulheres que optam por usar um véu para cobrir o rosto”.
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