Uma fábrica de convertidos: o suspiro final dos jornais
A morte lenta do modelo económico da imprensa tradicional não se mede já apenas nos balanços contabilísticos a encarnado, redações delapidadas ou bancas de jornais a fechar portas.
O seu custo mais ruinoso e corrosivo mede-se na capitulação intelectual do jornalismo.
Encurralados pela perda da receita publicitária para os gigantes tecnológicos e incapazes de sustentar redações robustas e seniores, a maioria dos órgãos ditos “de referência” viram-se empurrados para uma lógica desesperada de sobrevivência: a monetização do engajamento tribal.
Afinal, com vista a manter os poucos subscritores digitais que ainda pagam, tornou-se imperativo alimentar-lhes a indignação diária e validar-lhes os preconceitos ideológicos.
É deste ecossistema fragilizado e desprovido de rigor analítico que nascem manchetes como a que na segunda-feira proclamava, num dos tais diários de referência, que os políticos que alteram as leis do arrendamento detêm “mais de mil imóveis”.
O número foi desenhado para chocar, apelar ao ressentimento social e fornecer munição pronta à fogueira do populismo – aliás, à “justa indignação”, uma vez que, aos olhos de quem redige estas peças, tal só parece existir do outro lado do espectro político.
Só que basta uma operação aritmética elementar e cinco minutos de escrutínio desapaixonado para que o castelo de cartas desmorone.
A começar pela escolha do alvo: o universo analisado de 220 políticos não abrangeu o Parlamento como um todo, mas apenas os governantes e os deputados das bancadas da direita (PSD, Chega, IL e CDS-PP), omitindo convenientemente qualquer inventário sobre a esquerda parlamentar.
Logo aqui, apaga-se da equação o próprio PCP – de longe a maior estrutura partidária proprietária de património imobiliário no país –, cuja vasta carteira de imóveis e isenções de IMI nunca mereceram semelhante fogueira inquisitória.
Depois, é uma questão de… fazer as contas.
Distribuir 1039 imóveis por esses 220 decisores resulta numa média de 4,7 unidades por titular.
Quando se constata que o valor patrimonial total ronda os 55 milhões de euros, a matemática desfaz a farsa: cada “imóvel” tem o valor médio de 53 mil euros.
Ora, em Portugal, 53 mil euros não compram um apartamento em centro urbano algum – aliás, mal dão para comprar um carro elétrico.
O que a manchete omitiu conscientemente foi a realidade matricial do país: garagens, arrecadações, parcelas rústicas de pinhal ou olival no interior e, sobretudo, pequenas quotas-partes de heranças indivisas de família – onde um titular partilha com tios e primos frações ideais sem qualquer liquidez comercial, nem possibilidade de colocação no mercado de arrendamento residencial.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.